Terça-feira, 11 de Agosto de 2009

As veredas

 

Todas as noites, terminadas as aulas do liceu, o professor de física regressava a sua casa e cortava pelo atalho no parque para ganhar alguns minutos. Vivia sozinho, mas não gostava de perder tempo e o passeio ajudava-o a pensar em coisas estranhas, na consistência do cosmos ou em mundos paralelos. Dessa vez, tivera um pressentimento funesto, que se acentuou com as sombras densas do arvoredo, que o vento fazia esbracejar, tal qual uma multidão de alucinados discursos. Mas o ligeiro medo não foi suficiente para ele decidir fazer o caminho mais longo. Como sempre, tinha pressa. Prosseguiu com a rotina metódica, apesar da má sensação que se lhe colara ao corpo. Apenas protegeu mais o peito, fechando o casaco de Outono (demasiado leve) com as duas mãos, assim unidas numa espécie de reza, e lançou-se pela vereda escura, sem mais hesitações, passo acelerado, a cabeça inclinada para um chão que mal se via.

A travessia pareceu durar mais tempo do que era habitual. Tudo ondulava à sua frente, como um grande mar agitado, e a luz difusa que vinha dos candeeiros públicos da estrada, mais além do parque e cada vez mais longe, apenas sublinhava o clima confuso da floresta do parque público, a sua entranha em túnel e a cinzenta escuridão que o engolia num tumulto. Também devia ser assim o turbilhão do espaço primordial, pensou, com nitidez distraída.

De súbito, sentiu-se flutuar. Tropeçara e caiu, mas como que em câmara lenta, sentindo todo o percurso até ao chão. Os pensamentos estatelaram-se com ele e teve na boca a amargura do solo húmido. A nuca doeu-lhe de forma aguda e as mãos esfoladas pareciam ter mergulhado em ácido; durante algum tempo (a imprecisão do quanto) não viu mais nada, nem sentiu mais nada, nem cheirou ou tocou mais nada. Fora arrastado num abismo de nada e deixou-se arrastar.

O corpo dorido estendera-se na relva do caminho (seria relva esponjosa?) e percebeu que se suspendera a dança das ramagens; as folhas das árvores, subitamente amansadas, pairavam num contraste de escuro negro com fundo azulado escuro. A luminosidade do próprio tempo, meditou, a qual respirava do fundo dos tecidos fragmentados do mundo. Deixou-se levar nestas ideias, embalado na noite, encantado com a maneira como suavizara a ventania. Foi então que sentiu a música, que vinha de um recanto do parque. E viu os farrapos de luz eléctrica e as sombras. E ouviu os risos de gente. Iria lá pedir ajuda. Afastou o cobertor de folhas que tinha em cima.

Nem soubera que nessa noite havia festa no parque. Era um facto surpreendente. Sem o vento, a temperatura tornara-se amena. Abandonou a vereda e passou por entre as folhagens (o chão de folhas derretia-se sob o peso, numa carícia), abrindo caminho entre arbustos, e tornava-se mais intensa a música e mais brilhante a luz. E ali estava, perante a sua surpresa, a clareira cheia de gente feliz, de barracas de divertimentos e bebidas, carrosséis, famílias em passeio, a confusão habitual das festas da cidade. Que eram sempre no Verão.

E pensou, com clareza, como era estranho não ter sabido.

Avançou na direcção das pessoas.

Toda a gente vestia roupas leves e ouviam-se pedaços de conversas: vem cá anuska, não gosto dele, apetece beber; e a música tocava, bonito como o raio; quero ir ao carrossel, ficamos mais um pouco, a mãe disse…, quase no final…, um filme muito…, tens de ler…, demasiado caro…; o cheiro imenso do açúcar e da cerveja derramada; e a música prosseguia, lenta; anuska não te percas; e a banda soprava no estrado e viu os músicos que suavam como se saíssem da piscina; e nem uma folha do arvoredo bulia, (como compreender o frio?) e o céu estava limpo e estrelado por cima, abóbada perfeita e solene; e ao longe um sino; e flutuavam anjos; vem cá, minha estúpida, gritou alguém.

Ao entrar no meio da multidão que se acotovelava, viu que algumas pessoas olhavam para ele com reprovação; bêbado, neste estado, coitadinho; e que se afastavam.

E foi num incerto momento que ficou em frente a uma mulher que o olhava de forma insistente, como se fosse míope: era morena e bonita; cabelo à garçonne; em roda de trinta anos; blusa vermelha decotada; um corpo redondo e cheio, a saia comprida, calçava sandálias. Pareceu-lhe tudo isto, mas viu sobretudo a expressão de horror, ou melhor, de surpresa e espanto:

“Que estás aqui a fazer? Como é que mudaste de roupa?”, disse ela, voz muito aguda.

Ao lado da desconhecida, caminhava um homem alto:

“Cláudia, o teu marido é maluco. Como é que os alunos o aturam?”. O tipo apontara na direcção dele, professor de física, que saíra de uma vereda ventosa num parque vazio para deparar com aquela impossibilidade. E, por uma qualquer magia, os dois desconhecidos sabiam quem ele era, e a mulher que se chamava Cláudia (assim dissera a outra figura) seria a sua própria mulher (que não tinha).

“Isto é impossível”, disse o professor, sem nexo, cheio de frio, a segurar o casaco.

“Vinhas atrás de nós”, implorou Cláudia, à beira da histeria.

“Mundos paralelos”, gaguejou, “caminhava a pensar neles, outros universos, mas é precisa demasiada energia…”

Não podia explicar.

“Cláudia, o teu marido está bêbado”, disse o desconhecido, a rir-se. Pareceu-lhe que rira maldosamente. Com sarcasmo e ciúmes, talvez.

E, de súbito, numa angústia, a mulher apontou o dedo e gritou o nome dele. Como é que o conhecia, se nunca se tinham encontrado? E foi então que… sim, não havia dúvida, era ele mesmo, o professor de física, mas noutro tempo ou noutro universo, a caminhar de trás, no meio da multidão, ainda a dez metros de distância, a aproximar-se; vestia uma camisa suada, ainda não o vira a ele, o viajante surpreendido no presente, mas então os olhares cruzaram-se, ou melhor, a personagem que era o outro eu irreal viu-se a si mesmo, (eu consciente) embrulhado num casaco de Outono e cheio de frio e dores na cabeça…

O mundo explodia e o professor não conseguiu enfrentar aquela realidade impossível: virou-se, fugiu da luminosidade, em direcção da noite. E ainda ouviu, durante algum tempo, Cláudia que gritava mais vezes o seu nome, e vozes confusas e a música que se diluía.

Voltou o breu à volta e ergueu-se de novo o vento. Tropeçava e doía-lhe a cabeça, mas continuou a caminhar. Deixou de ver, mas as pernas moviam-se, mecanicamente; até que chegou ao fim do parque. Havia uma estrada, à esquerda, mal iluminada, excepto a luz de uma paragem de autocarro. O vulto de uma rapariga, numa gabardina creme. Ela sentara-se na paragem, sozinha. À espera do último autocarro, pensou o viajante. Caminhou para ela, cambaleou, e viu como a rapariga se assustava com aquela figura que emergia de súbito da noite, como fazem os assassinos.

Ela ainda tentou fugir, mas ele pediu-lhe ajuda, e a voz débil convenceu-a:

“Ajude-me, sou professor do liceu…”

“Que se passa?”

“Tive um acidente, talvez um ramo em queda…”

E o professor de física, muito racional, deitou-se no chão. Agora, tudo era evidente e voltava a fazer sentido: um ramo de árvore batera-lhe na nuca e tivera uma alucinação luminosa, onde apareciam pessoas fictícias. Apesar da escuridão, a mulher da gabardina creme viu o sangue que jorrava da cabeça dele e o homem balbuciava alguma coisa sobre a festa no parque, a luz e a banda, e que imaginara tudo, até se riu no delírio, mas ela não percebeu nada do que ele dissera, pois o parque estava vazio. A mulher julgou que o desgraçado enlouquecera.

“Foi tudo imaginação minha”, conseguiu ainda dizer o professor de física, mas numa voz tão fraca que ela se aproximou para ouvir.

E foi nesse instante, quando a rapariga se moveu e a pele dela ficou iluminada pelo candeeiro público, que o homem viu com nitidez a cara dela: era a mesma morena que encontrara na zona de luz, na festa improvável, a do cabelo à garçonne, que o outro desconhecido afirmara ser a sua própria mulher. Exactamente a mesma.

“Cláudia”, balbuciou, num arrepio…

Ela abafou um grito, depois chegavam outras pessoas, ouviu-se a sirene da ambulância e, antes de ser levado para o hospital, ainda ouviu a rapariga da gabardina creme a explicar a um polícia, com a sua voz inconfundível e, agora, demasiado familiar:

“Eu não o conheço, nunca o vi, mas ele sabia o meu nome. Disse que era professor do liceu. É muito estranho, chamou por mim várias vezes”.

 

   

publicado por Luís Naves às 15:01

link do post | comentar | favorito
4 comentários:
De Luís Naves a 11 de Agosto de 2009 às 15:34
Segue aqui o meu agradecimento a Missanga Azul pelo magnífico design que concebeu para o blogue. Agora, temos a responsabilidade de escrever mais assiduamente. João, é a tua vez.
De Luís Naves a 11 de Agosto de 2009 às 16:08
Obrigado, Cátia
De MissangaAzul a 11 de Agosto de 2009 às 16:22
De nada, foi um prazer!
Já agora, chamo-me Cátia!
:)
De CPrice a 9 de Setembro de 2009 às 12:48
.. que agradável surpresa esta no regresso de férias :)

Do texto? é inesperado! como sempre.

Continuem *

(Once)

Comentar post

.mais sobre nós

.pesquisar

 

.Setembro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Penúltima canção

. Cena de ciúmes

. Naquele tempo

. Nada e o mundo

. Na varanda das noites

. O seguro

. Aos domingos

. Onde os pássaros mordem

. Uma coisa estúpida

. London distance call

.arquivos

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Maio 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds