Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Bilhete de identidade (II)

 

 

(...)

(Foram três pontos ou mais do que três? Enfim, pouco importa. Seguem os elementos entre quatro e dez):

 

Os meus pais eram trabalhadores pouco instruídos. A minha mãe, Ana Fischer, que ainda é viva, nasceu em 36, numa aldeia no leste do país, junto à fronteira romena; o meu pai, János Kormányos, era refugiado da Transilvânia. No final da guerra, nos anos mais duros, ambos crianças, os meus pais aperceberam-se da incomum violência que se tornara comum em torno deles.

 A família Kormányos vivia em Makó. O meu pai brincava com os rapazes de uma família de judeus que habitava na casa ao lado. Um dia, chegou a milícia e levaram-nos. O meu pai perguntou o que acontecera e a minha avó, assustada, fê-lo jurar que não voltaria a falar no assunto.

A família Fischer também tinha um segredo, que me é difícil de contar. Quando os soviéticos invadiram a Hungria, entraram pelo leste. Em certas regiões, houve violações em massa e penso que a minha avó materna não escapou. No final de 45, nove meses depois da invasão, nasceu a minha tia Sara, cujos traços asiáticos lhe davam grande exotismo. Mas aquela beleza era um assunto tabu. Não me interpretem mal, só não se falava nisso: os meus avós adoravam especialmente a filha mais nova e eu, que era o sobrinho preferido e único dela, sempre pensei que a minha tia Sara era uma deusa (apaixonei-me por ela em 1970, mais ou menos um ano; eu com nove anos, ela com 24). Para mim, Sara era a mulher mais perfeita do mundo, ainda hoje o meu ideal de beleza.

A minha tia Sara morreu em 75, mas não quero falar nisso.

Os meus pais conheceram-se em Budapeste um ano antes de eu nascer. Eles trabalhavam na mesma fábrica. Sou filho único.

Nos anos 60 e 70 muita gente melhorou de vida, mas só me lembro de ser pobre, embora na altura não me apercebesse disso. Vivíamos numa torre de apartamentos em Kispest, um bairro que ainda hoje me provoca sentimentos contraditórios: subúrbio sujo e sem alma, cheio de vidas apressadas e de gente insatisfeita; e, apesar de tudo, conheço cada recanto daquela arquitectura desolada: os caminhos cheios de lama, as caras fechadas, os pátios vazios e o rumor do interior das casas, entre ervas daninhas que rebentam as lápides e grupos de jovens desempregados encostados à estranha decoração dos grafitos sem nexo.

O meu pai, que era comunista, queria que eu estudasse economia, pois tinha grande admiração pelo poder dos burocratas do ministério do planeamento. Mas fui um desastre nas cadeiras de marxismo-leninismo (não conseguia empinar aquilo) e tive uns problemas na faculdade, pois meti-me com um grupo de oposição. Eles eram mais poetas do que políticos e publicavam os poemas em samizdat, tudo inofensivo e inocente. Não fui preso, nem nada, mas apenas semi-expulso. Como o meu pai era do partido, transferiram-me (escolhi letras) e na altura comecei a trabalhar. Fiz serviço militar e tive dois empregos (numa loja do estado e num hotel, onde houve episódios divertidíssimos) antes de acabar o curso.

Depois, veio a transição e a queda do regime. Para os meus pais foi terrível: a pátria era agora livre, e isso parecia bom; mas a fábrica fechou e foram reformados com pensões incapazes de acompanhar a inflação. Tudo aquilo em que tinham acreditado acabava da pior maneira. O meu pai morreu em 1999, com o mesmo coração amargurado com que costumam morrer os melhores húngaros.

 

(Devia completar até ao ponto dez e já devo ter passado do quinze. Mesmo assim, continuo: estes são os últimos dez pontos da minha autocrítica):

 

Os meus amores sempre acabaram mal. Até hoje tive três relações mais ou menos duradouras, com mulheres que não me compreendiam ou, melhor, que nunca cheguei a compreender.

Uma delas chamava-se Sara e acho que foi o nome que me atraiu nela. Vivemos juntos oito anos. Era uma ruiva magra, com a pele muito branca, seráfica, um pouco distante. E foi essa parecença de esfinge que me excitou (imaginava que debaixo daquela frieza existia um vulcão de emoções).

Era imaginação minha, claro. Aliás, a minha imaginação costuma trair-me. Em tudo vejo conflitos e delírios, ardor e tormento, aventuras. Mas na minha vida não tive senão falsas partidas e pequenas ilusões. Um acumular incessante de banalidades. Viajei pouco, em vez de conhecer o mundo. Tive medo, confesso, medo do que estava além do espaço limitado onde passei os dias, sem reparar que eles passavam mesmo, que se gastavam, que não havia mais nada, depois de estarem consumidos.

 

(último ponto):

 

Não tenho controlo sobre o meu destino e nisso sou igual às minhas personagens. Um dia, tentarei escrever um romance, mas não sei se tenho talento, palavra que um crítico literário nunca deve usar. Gosto da língua húngara, mas acho que podia escrever em qualquer outra língua.

Chamo-me Lájos Kormányos. Sou um pequeno escritor de livros de pequena tiragem.

 

(E agora vou enviar isto para 25 amigos; cada um deles terá de escrever a sua própria história).

 

publicado por Luís Naves às 10:18

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2 comentários:
De Once a 4 de Fevereiro de 2009 às 12:01
eu não sou critica literária Caro Luís e portanto acho que posso usar a palavra talento.
Um grande talento.

De Luís Naves a 4 de Fevereiro de 2009 às 15:49
agradeço muito. gosto de a ver por cá

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