Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Uma situação nova

 

“Para mim, esta é uma situação nova”, disse o robô.
O engenheiro continuou a ajustar as correias, sem prestar demasiada atenção; limitou-se a balbuciar qualquer coisa desnecessária, acrescentando o nome da máquina, “esteja quieto, RX-45-99”.
Sentiu a postura subitamente rígida do robô:
“Há muita coisa que nunca compreendi nos humanos: a angústia da morte e da dor”, afirmou, de súbito, RX-45-99, na sua vozinha estranha.
O engenheiro quase deixou cair os instrumentos de medição. Nunca ouvira um RX a falar assim. Sentiu-se na obrigação de o repreender: 
 “É natural, não passas de uma máquina. O teu sistema nervoso é diferente do nosso e não há maneira de compreenderes”.
O engenheiro dissera aquilo com uma ponta de ansiedade irritada. Estava surpreendido. Parou de ajustar os equipamentos da experiência e afastou-se para observar a folha do robô e como ele chegara ali. O que leu deixou-o ainda mais espantado. Regressou, mas ainda não lhe passara a nervosismo:
“Diz aqui que eras um operário filósofo”, agitou a folha à frente da máquina. Pela primeira vez observou RX-45-99: igual aos outros, enfim, máquina descartável, obsoleta, a cara imóvel e o olhar vazio, a superfície plástica e muito polida do crânio, o pescoço fino, com as vértebras visíveis.
O robô estava preso pelas correias, muito rígido, mas parecera distender o corpo e começou a falar:
“Na minha fábrica, formámos um clube de discussão de filosofia. Chegámos a ser vinte máquinas, cada uma com o seu filósofo. Agora, restavam três de nós, que foram vendidos. Eu chamo-me Cícero. E qual é o seu nome, humano?”
“Os robôs não deviam ter nome, só os humanos é que têm direito a isso. Mas se queres saber, eu chamo-me Barry”.
O robô pareceu ficar mais direito ainda. Via-se que gostava de falar. Foi ele a continuar a conversa:
“Eu gosto de citar Cícero, que foi um grande sábio. E fiquei com esse nome. Os meus colegas eram o Espinoza, que foi desmantelado na semana passada, e o Hegel, a quem tiraram algumas peças e que depois de perder a memória rígida foi guardado num armazém”.
“Foram os três vendidos...”
 “Havia falta de verbas. Disseram que não havia dinheiro para manter três máquinas a especular inutilmente. Foi uma questão económica, de produtividade”.
“Claro, os robôs não servem para especular”.
Cícero ficou pensativo. Depois, disse, com uma ponta de orgulho:
“A minha venda rendeu mais dinheiro porque esta função terminal é muito valorizada na vossa sociedade”.
O engenheiro ficara silencioso e Cícero aproveitou para continuar a falar. Parecia estar programado para ter prazer na conversação:
“Sabendo embora que serei útil, não deixo de ter curiosidade em relação ao momento em que a vida finita se vai separar desse outro momento incompreensível e talvez infinito a que alguns de vocês, humanos, chamam o além. Haverá tempo para compreender, é o que espero. Se a transição se prolongar por mais de um nanossegundo, poderei talvez recolher a informação suficiente, pois os meus circuitos são capazes de analisar biliões de permutações nesse curtíssimo espaço de tempo. Enfim, a passagem da existência para a não existência terá de durar algum tempo...”
“É uma coisa ou outra e, por isso, não há transição nenhuma...”, interrompeu Barry.
“Se existem dois estados distintos, existirá uma transição. Curioso problema, de qualquer forma”, disse o robô. “E estou entusiasmado, por me encontrar tão perto de o resolver. Os meus amigos Hegel e Espinoza já devem saber a verdade. E como um dia disse o meu mestre Cícero, ‘aquilo a que chamamos prazer é a ausência da dor’, e se nunca senti a dor, então a minha existência foi um longo momento de prazer, algo que tu, Barry, infelizmente não sabes, apesar de seres tão brilhante como forma de vida, pois o teu corpo imperfeito sofre dores constantes”.
O engenheiro acabara a tarefa de colocar todos os sensores para medir a intensidade dos choques. Com um sarcasmo que o surpreendeu, o engenheiro ouviu-se a dizer:
“Filósofo ou não, tu não passas de uma máquina a bordo de um veículo que vamos fazer chocar contra uma parede, para testar a sua segurança. A ideia é ficares desfeito”.
“Se na morte sentir dor e angústia, então poderei finalmente compreender o imenso prazer que foi a minha vida, naquele nanossegundo da transição em que não acreditas”, respondeu o robô.
 Barry carregou no botão. O veículo avançou a uma velocidade vertiginosa na direcção da parede. Houve um tremendo choque e o robô, movendo-se como um boneco desarticulado, bateu violentamente na chapa deformada, nos vidros estilhaçados e nos ferros que se esmagavam.
No chão, no meio da amálgama de destroços, ficou um corpo informe, os pedaços de RX-45-99.
Barry pegou numa peça solta e inerte e, por um breve instante, mesmo breve, pensou se Cícero teria ou não compreendido o mistério final da condição humana.
 
  
publicado por Luís Naves às 12:28

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6 comentários:
De Once a 30 de Janeiro de 2009 às 13:01
de onde lhe vem isto pergunto .. :)

Gostei muito Caro Luís.
De Luís Naves a 30 de Janeiro de 2009 às 13:28
é sempre bom saber que um leitor gostou do que leu.
em relação à pergunta, devo dizer que não sei responder. tento ser sincero e usar as minhas ideias de uma forma narrativa, que faça sentido e seja compreensível
De Once a 30 de Janeiro de 2009 às 14:49
e usa-as lindamente Luís, digo-lhe eu que lhe acompanho escritas desde o Silêncio do Vento ;)
ah pois é ..!
De Margarida Pereira a 3 de Fevereiro de 2009 às 14:23
Mrs. Muir misses her ghost and gets lost (althoug delighted) with so many futurisms…


De Luís Naves a 4 de Fevereiro de 2009 às 10:07
then the ghost must return
De Margarida Pereira a 5 de Fevereiro de 2009 às 14:47
The ghost should never leave...
Ghosts are the best friends.

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