Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Emboscada

 

A estrada de terra era como um ribeiro seco, serpenteava indefinida.
E o homem perdera-se na selva dos seus pensamentos: sentia os músculos tensos, o corpo quente, as ideias febris. O ritmo marcial das suas botas ecoava entre colinas, nos campos vazios, nas copas indolentes dos pinheiros selvagens; ouvia-se pelo chão doente, na marcha descompassada de um coração sombrio.
Começava a pesar-lhe o saco que trazia às costas; e as roupas civis incomodavam, demasiado apertadas, excepto as calças, que não ainda trocara, por não conseguir arranjar umas que lhe servissem. Estava a andar há quase uma hora. A aldeia era ainda mais à frente. Na momento do maior calor devia estar desabitada.
Olhou as árvores à volta, curvadas pelo estio pesado, a ameaça de trovoada acima; e sufocava-se naquele ar, que lhe agarrava a garganta com os seus dedos longos. Seria o cansaço ou a atmosfera densa? Os cheiros sentia-os diferentes, compreendia isso, mas havia algo que não se diluíra ainda na confusa amálgama à sua volta.
 
Foi numa zona mais fresca do caminho, numa curva da estrada, que ouviu o canto estridente dos insectos. Já o tinha ouvido antes, claro, mas era um som indistinto, só agora presente. Fez mudar a redoma em que se refugiara. Insistente, repetido, parecia vir do próprio solo, assobios sincopados que funcionavam como vibração da terra, enfim, respiração e suor. As memórias misturaram-se: a escola da infância, a voz da mãe que o chamava do campo, o som alegre dos regatos, o badalo de um animal que pastava num campo vazio; os fetos que cobriam a pele da floresta; e da mata, longe, do outro lado do pinhal, de onde fluía uma luminosidade gloriosa, chegava uma voz distante, a dizer não se sabia o quê... E o silêncio pantanoso, as paredes carcomidas do bunker, a paisagem verde em frente, o cheiro a cinza da cubata e o relâmpago solar da faísca de uma bala a bater a centímetros da cabeça...
E foi nessa altura que sentiu medo e começou a andar como quem se prepara para a emboscada.
 
O estalido fez com que se virasse, alerta. O ruído viera de um ponto mais elevado, um pouco atrás de si, sobranceiro à estrada (pinha a cair do alto? Um gato vadio? Um corpo em movimento?).
Sem desviar o olhar, tacteou o chão com a ponta da bota e começou a recuar.
O arvoredo mudara: era mais espesso, de folhas grossas, de verde bizarro. E pensou: minas! Uma onda de angústia tornava a claridade ainda mais brilhante, mas não podia desviar o olhar para o chão, pois o inimigo estava ali perto, quase o pressentia; e de súbito detectou aquele odor a floresta morta, a proximidade, calor, opressão, o besouro estridente dos apitos, a voz perdida no nada. E os ramos das árvores batiam uns nos outros, num rancor...
...De súbito, aquela sombra fugidia, bater de asas; e outra, pelo canto do olho. E de novo um estalido, talvez passos. Cercado, não tinha mais tempo, sentia fúria, correu na direcção oposta para um monte de arbustos, queria viver (não via nenhum companheiro, estava perdido) e saltou para além do visível, sem olhar; teve a noção dos espinhos que lhe rasgavam a mão e a face; e o joelho arrastou-se pelas pedras; o caminho parecia livre, nuvem de pó...
...Resvalou pelo declive, tombou de frente, desequilibrado, escondeu-se atrás de um tronco (a arma, onde perdera a puta da arma) o tempo parava, viu outra sombra: fugir dali...as minas...os turras próximos...para onde?...
 
E quando viu o rapaz estupefacto, branquinho, de tronco nu, lá em cima, onde ficara a estrada, percebeu que...
A mão sangrava, esfolada, e pela sua face corria um líquido quente; magoara-se no nariz, parecia-lhe, mas não lhe doía nada.
O homem sacudiu a poeira da roupa; as calças militares estavam um pouco rasgadas.
Atrás do primeiro miúdo, chegara outro. Tinham penas de galinha espetadas na cabeça, presas por um pano. E na mão arcos de fingir, paus a fazerem de setas.
Um deles disse:
“Uh! Uh! Estás morto. Vamos arrancar-te o escalpe!”
E os outros desataram a rir. Havia mais dois, um dos quais dançava, mão na boca, aos gritos e ao pé-coxinho, como um boneco a rodar num eixo. Estavam em tronco nu, tinham pinturas no peito, riscos vermelhos e círculos.
 
O homem tentou dar um passo, mas sentiu uma dor na perna. E a cólera era uma onda tépida, que começava a sufocá-lo.
Agarrou alguma coisa, uma planta talvez, que a sua mão esmagou com força...
Os miúdos riam num desvario. “Assustou-se com os índios”, gritou um deles, escarnecendo lá para baixo. “Teve medo dos índios”...
A perna doía-lhe, mas o homem começou a subir o declive, de volta à estrada:
“Canalha do diabo, se vos apanho!”, gritou.
E avançou como um touro, desajeitado na subida, tropeçando, o peso a empurrá-lo para baixo.
Os quatro miúdos fugiram, cada um para seu lado, um deles aos gritos, três ainda na risota, esconderam-se no outro lado da estrada e ouvia-se “Uh! Uh!”.
Depois, passos de corrida, uma poeira fina na vereda que se internava na floresta.
 
O homem conseguia respirar mais devagar. Ficou ali parado, na estrada branca. O silêncio regressara, excepto o barulho do vento que fustigava o arvoredo. No solo, estava o grande saco, o que lhe restava da tropa, mais as calças rasgadas e o medo, e as botas, e a raiva. Os insectos tinham-se calado. Que magia era essa?
E então, na opressiva tarde, ouviu-se o primeiro trovão de uma tempestade distante. Como se caísse um morteiro, mas agora já não parecia isso, apenas a inofensiva trovoada no ar pesado.
Antes que começasse a chover, o homem caminhou para a aldeia, a coxear lentamente. Ainda ouviu por algum tempo o riso abafado dos miúdos, que se tinham escondido ali perto.
 
 
 
publicado por Luís Naves às 19:44

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