Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Decisão

 

Ele estava sentado na fonte, de costas para o chafariz. Atrás, havia uma bacia de pedra, cheia de água; e ouvia-se o barulho do fio que corria do cano, pequena cascata a estalar como fogo-de-artifício na feira.
Do saco que trazia a tiracolo ele tirou uma bolacha. Procedeu com gestos cuidadosos, arrumados; demasiado arrumados, excesso de arrumação, pareceu-lhe; como se estivesse a acariciar o único fato; ou até pior: como se alinhasse o lençol que cobria um filho morto; enfim, gesto intranquilo, repleto de austeridade.
Viu que ele tirara a bolacha do saco e que, devagar, começara a trincar a massa estaladiça, expressão de prazer. Na lua cheia da bolacha ficou o desenho da meia lua, que era a impressão do maxilar dele. Pareceu pequeno. A fonte continuava a cantoria, melancolicamente monótona.
Os músculos dele moviam-se ao ritmo pressuroso do queixo que triturava a bolacha. Músculos debaixo dos olhos, movendo-se como bielas de motor; nas bochechas e até na testa também algo se movia, frémito de pele semelhante a uma contínua mastigação de ideias, moendo prosseguidamente a coerência interna da bolacha, que se quebrava em pedaços minúsculos, um dos quais inclusivamente ficou preso na comissura dos lábios, pegajosa superfície que, observada a partir do exterior, lhe provocou um súbito arrepio de nojo. Rosácea palpitação, flor carnívora, beiços pálidos.
O movimento dos músculos era como se debaixo da pele dele houvesse delicados vermes.
A bolacha ficara meio devorada. Havia migalhas no chão, que as formigas descobriram por sorte ou por persistência, aventurando-se naquele solo encharcado pela água transbordada da fonte. Ela observou o carreiro de formigas que se ia formando entre folhas da relva amassada e hastes de pequenas flores esmagadas. Fixou o olhar nas meias dele, de um tecido áspero, e no pedaço de pele do tornozelo, entre as meias e a calça. Pele tão lívida como farinha, sem vontade, decisão ou energia.
A bolacha desaparecera na boca dele, volume distorcido lá dentro, como se um animal preso quisesse escapar em desespero. E os músculos satisfeitos da cara tinham agora tom avermelhado, de sangue feliz.
As nuvens deslizavam no céu, sopros vindos do horizonte. E, ao fundo, alguém pintara o vermelho infernal do crepúsculo.
Ela percebeu que o verão terminara. E nesse instante, onde se misturavam as migalhas da bolacha, decidiu que nunca se casaria com ele. 
 
publicado por Luís Naves às 18:57

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