Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Atrás do nevoeiro

 

András esquecera-se de telefonar e, logo que ligou e ouviu a voz de Eszter, percebeu que havia tempestade: a rapariga não escondia o ressentimento, podia ouvir-se no tom em que pronunciava as palavras:

“Estive aqui mais de meia hora, desprezada, à espera do teu telefonema”, disse Eszter.

Ele imaginou-a sentada à espera, inclinada como a mulher da Pietà de Michelangelo, mas com o Cristo substituído por um telemóvel a afogar-se nas pregas da túnica. Tentou desfazer o nó, inventou uma desculpa esfarrapada, mas soou a falso. Ela percebera o truque e não alterou a tonalidade agreste e chicoteada na voz. Eszter continuou meio lacrimejante.

András ainda pensou em brincar com aquela crispação exagerada, mas também lhe subia a irritação à cabeça e sentia o sangue a ferver. Apesar de tudo, resistiu à ideia de ser mais brusco. Não lhe apetecia conhecer a mãe da rapariga, mas não queria provocar uma crise por causa disso.

“Só agora é que acabei o relatório. Vamos a tua casa noutro dia”.

Eszter voltou à carga:

“Eu não te devia falar durante dez anos”, insistiu, infantil e mimada.

Andras percebeu a abertura:

“Seria injustiça”, disse. “O killer de Debrecen foi só condenado a 12 anos”.

Ela finalmente riu-se. Toda a gente seguira o caso do assassino que matara quatro membros de um bando ligado à máfia albanesa.

Ao ouvir o riso do outro lado, András cedeu. Combinaram um encontro na praça Moscovo, à saída do metro. Iria conhecer a mãe de Eszter.

 

Todo o caminho, parecia um sonâmbulo, a pensar naquilo: que diabo Eszter via nele? Podia ser o estatuto, o facto de ele ter dinheiro, mas parecia-lhe fraco motivo: a ascensão social não era motivação forte para os jovens que conhecia e se o seu emprego parecia bem pago, o facto é que nem sequer era rico, sobretudo porque tinha de pagar a pensão dos filhos do primeiro casamento. A fuga à monotonia? Talvez ele lhe proporcionasse o que os rapazes da geração dela não lhe podiam dar. Segurança e alargar de horizontes. Mas podia também ser um mero troféu para ela mostrar às amigas. Ou, mais prosaicamente, objecto de manipulação, seduzido por um choro bem calculado, a pequena súplica, o minúsculo gesto, a cedência que a tornava credora, o suspiro com tristeza feroz. 

 

À saída do metro, surpreendeu-se com a luminosidade, pois caíra um nevoeiro pesado. A orla de edifícios, ao fundo, nem se avistava. E das nuvens saíam os eléctricos, como se fossem comboios fantasmas, nos seus carris, e o farol da frente o gigantesco olho dos monstros ciclopes.

 Eszter apareceu-lhe de súbito, emergindo do meio da multidão que dispersava, ser vagamente etéreo a sair de um oceano oculto. Trazia o cachecol enrolado ao pescoço, um casaco espesso cuja cor se esbatia na cinza absurda, o gorro a esconder-lhe o cabelo. Segurou-se a András; ficou com o braço enroscado no seu braço, que era um gesto que sempre o incomodara. E ficaram os dois na plataforma, à espera do autocarro que subia para Buda, silenciosos e sozinhos, como se estivessem numa ilha, o rumor do mundo a conversar aquilo que não conseguiam dizer um ao outro.

 

A mulher que lhes abriu a porta tinha 45 anos, mas parecia mais jovem. Olhou para András com uma expressão de espanto. Empalidecera. Ele surpreendeu-se com a reacção, pois pelo que lhe contara Eszter pensava que já a conhecia: Dorothea (Dori) era médica, divorciada e vivia com a filha única num apartamento elegante de Buda, numa rua calma, que subia abruptamente na direcção da colina. Dori, que imaginara mais velha, era alta e magra, tinha o nariz algo rude, de camponesa, mas certa elegância sofisticada na maneira de falar e nos gestos contidos.

Depois daquela primeira reacção de surpresa, a mãe não fez mais cerimónia, como não teria feito com um namorado da filha que tivesse vinte anos. Trouxe András para a cozinha e deixou que Eszter falasse de coisas sem importância, fingindo não perceber a atrapalhação da rapariga. András percebeu que Dori o observava, mas o seu era um olhar de uma melancolia inexplicável. Não conseguia esconder a desilusão (ou seria perplexidade, medo?) por o namorado ter o dobro da idade da filha.

Houve uma agitação de preparativos; Eszter foi para a sala arrumar a mesa, a mãe ainda completava a comida.

“Estava à espera de um homem mais novo?” perguntou Andras.

Ela não respondeu.

“A sua filha não lhe explicou…”, disse András.

Ela fez que sim com a cabeça, mas não disse mais nada. Eszter reaparecera, parecia aflita, exagerava na alegria, falava e falava, nervosamente, e não se calava com perguntas sobre copos e pratos e se devia levar o pão para a mesa e que vinho havia para abrir. András percebeu então que nem sequer levara uma garrafa de vinho. Teve a sensação de quem se afunda num momento embaraçoso; o que dissesse só poderia tornar ainda mais estranha a situação; e nada dizer era a confissão da indiferença.

Falaram sobre banalidades. Sentaram-se, estavam os três à mesa, não se calavam e não diziam nada de concreto, até que ficaram os três silenciosos, como se houvesse barulho a estorvar a conversa, uma discussão no prédio ao lado, e tivessem parado de falar para poderem compreender as palavras ausentes.

András sentiu-se no interior do inferno, num casulo de silêncio, sem compreender a falsa tranquilidade que os rodeava, mas absorvendo toda a culpa do momento.

E, de repente, Eszter deu um salto que fez cair a cadeira e saiu da mesa, correndo dali para fora. Correu para o quarto dela e bateu com a porta.

András tentou erguer-se, hesitando embora.

“Deixe-a chorar”, pediu Dori.

“Tenho a sua idade e esta relação pode parecer estranha, um homem de 45 anos, uma jovem de 20, mas asseguro-lhe que gosto da sua filha e que as minhas intenções são honestas”, disse András.

“Sei disso”. Dori sorria-lhe, distante. “A culpa não é sua. Mas quando o vi a entrar por aquela porta, pareceu-me que estava a olhar para o meu ex-marido, para o pai de Eszter. Vocês os dois não são exactamente iguais, mas o András é o homem mais parecido com o meu ex-marido que jamais encontrei”.

Ficaram ambos calados, durante algum tempo. Depois, Dori disse:

“Não sei a razão dela fazer isto. Para me punir, talvez. Tente não ficar muito ferido”.

András levantou-se da mesa, pegou no casaco.

Despediram-se com um aperto de mão.

“Vou tentar consolar a minha filha. Adeus”, disse Dori.

Fechou a porta. András desceu as escadas. O nevoeiro conquistara toda a rua e toda a colina, como se fosse a respiração de mil almas inquietas.

  

 

publicado por Luís Naves às 09:54

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3 comentários:
De ergela a 22 de Janeiro de 2009 às 12:10
Meu Deus! Que grande texto!
Quando fôr grande quero escrever assim.
Um abraço de amizade, e parabens
De Once a 22 de Janeiro de 2009 às 16:18
pois eu tenho a noção que nunca escreverei assim .. que texto! Caro LN :)

De Luís Naves a 22 de Janeiro de 2009 às 19:03
muito obrigado pelos vossos comentários. ainda bem que gostaram

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