Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Um leve cheiro a ozono (segunda parte)

(...)

Maddox desceu a avenida, mas o calor era intenso e a força da gravidade parecia mais forte após ter bebido dois copos. Hesitou em relação à caminhada. Depois, decidiu prosseguir de autocarro. Vinha um na mesma direcção. Fez sinal e entrou no veículo, que parara a seu lado. Estava lotado atrás e havia poucos lugares na parte da frente. Aquilo fez regressar a sua irritação, a ponto de exclamar: “Que chatice!”.
Ainda por cima, no melhor lugar sentava-se uma robot; gira, por sinal, loura e de perna longa. Maddox fez sinal para ela se levantar. A robot olhou para ele, implorou:
“Estive de pé quase 12 horas, no meu trabalho, deixe-me ir sentada”, disse ela.
Maddox ficou um bocadinho escandalizado. O atrevimento da tipa.
“E o que é eu tenho a ver com isso? Cansaço é defeito de fabrico”. E, num tom implacável, ordenou: “Sou humano e eu é que sei o que é estar cansado. Faça favor de se levantar”.
A jovem robot obedeceu. Ergueu-se (era alta e agradável de corpo) e foi para trás do veículo, onde alguém lhe cedeu o lugar. Maddox ocupou a janela e, por um momento de alucinação, julgou ter visto no olhar dela um ligeiro vexame ou que lhe pareceu ser leve emoção de censura. Sentiu que outros olhares se cravavam na sua nuca. As máquinas reprovavam a sua insistência no cumprimento da lei. E teve de se esforçar para voltar à razão: os robots não se ofendem, que tolice.
Nesse regresso à realidade sentiu o ligeiro cheiro a ozono que a loira deixara no assento e amaldiçoou a ideia de ter apanhado o transporte público colectivo. Podia ter apanhado um táxi, enfim. Era um problema que não se conseguia resolver: o mau cheiro deles, os robots que faziam todo o trabalho.
 
 
Quando chegou a casa, Maddox percebeu que a mulher também lá estava. Aquilo contrariou-o um pouco, pois não lhe apetecia ter uma discussão inútil.
Por isso, foi para o quarto, levou uma pizza e nem sequer saiu, para evitar encontrá-la. Acordou na manhã seguinte.
Estava estremunhado, esquecera-se da mulher e o choque com ela foi inevitável. Encontraram-se na sala, próximo da televisão de superplasma, onde passava o popular programa “desmantela o teu robot”. Um tipo enorme (faz lembrar o amante dela, pensou Maddox, enojado) partia as pernas a uma robot, bastante gira, por sinal, e que desatou a gritar de forma horrível. As pessoas aplaudiam imenso. Foi então que Maddox reparou que a sua mulher estava ali ao lado, a olhar para o programa de TV, mas parecia estranha, de olhos muito abertos e respiração pesada:
“Estou a sentir uma dor de cabeça horrível”, disse ela.
“Eu é que devia ter uma dor a cabeça”, sugeriu Maddox.
“Tens de me levar ao hospital. Há um problema com o meu microchip”.
“Qual microchip?”
“Não disse nada porque nunca irias concordar, mas enxertei um microchip para estimular o prazer, mas agora nem sequer me consigo sentar...”
Ela parecia aflita, mas Maddox não sentiu piedade. Aqueles microchips custavam para cima de dez mil dólares.
“Não faças essa cara, era de contrabando”, gritou a mulher.
Mesmo assim. Estavam finalmente explicados os buracos na conta bancária conjunta.
“Preciso mesmo que me leves ao hospital”, implorou ela.

 

(...)

publicado por Luís Naves às 12:55

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