Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Um leve cheiro a ozono (terceira e última parte)

(...)

A sala de espera estava vazia, excepto o robot que esfregava o chão. Uma máquina da última geração, que conseguia cumprir um horário de 65 horas semanais. A esfregona fazia pouco barulho e Maddox passou pelas brasas. Estava relativamente preocupado, apesar de tudo. Nada dissera à mulher, mas também ele decidira enxertar um microchip para excitar os centros neurológicos de prazer; escolhera uma marca branca e estava a pensar pedir o reembolso: por vezes sentia um ligeiro impulso que era quase exaltação, mas de resto nada lhe dava qualquer prazer ou sequer uma sensação efervescente, por mínima que fosse. Tratava-se de uma avaria, sem dúvida.
A médica que veio ter com Maddox era do tipo sofisticado. Reconheceu-a: era a robot loura platinada que vira no autocarro e a quem ordenara que lhe cedesse o lugar. Revelou-se uma beldade de falinhas mansas. Ela não o reconhecera, felizmente. Começou com rodeios, tipo a operação à sua esposa correu de forma satisfatória. Maddox perguntou o que acontecera e a robot começou a explicar uma coisa complicadíssima, que quase parecia a leitura de um calhamaço do primeiro ano de medicina.
“Em linguagem de gente, isso é o quê?”
A médica-robot-loura pareceu surpreendida com a pergunta.
“Estou a dizer-lhe que correu tudo bem”, confessou. E Maddox pressentiu uma ligeira emoção de vexame.
“Aproveito para lhe perguntar", disse Maddox. "Tal como a minha mulher, também comprei um microchip, mas não está a dar resultado. Por exemplo, olho para si e não sinto nada”.
Ela olhou para ele, depois continuou. No mesmo estilo:
“O microchip que retirámos do cérebro da sua esposa era de contrabando e tinha um defeito de fabrico que estimulava em excesso a líbido da paciente. O caso que me conta pode ser inverso e, no mínimo, o senhor terá sintomas de crescente paranóia. A prazo, o resultado é a morte. Ou seja, em linguagem de gente, teremos de proceder a uma imediata intervenção cirúrgica”.
A médica-robot chamou dois enfermeiros. Enormes, com cara de poucos amigos. Veio também a máquina da faxina. Seguraram Maddox com bastante força, obedecendo às ordens da beldade loura. O humano sentiu que havia na expressão das máquinas um ligeiro vexame. E, no ar, havia um leve cheiro a ozono.
“Há aqui algum médico humano?”, ainda perguntou Maddox.
“Não, as nossas equipas são todas mecanizadas”, respondeu a médica.
Maddox viu na beleza loura um sorriso a mais, ou seria da sua crescente paranóia? 
 
 

fim

publicado por Luís Naves às 12:54

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2 comentários:
De Once a 15 de Janeiro de 2009 às 14:58
histórias sem futuro Caro Luís? no way!

:) Gostei.
De Luís Naves a 15 de Janeiro de 2009 às 15:23
agradeço muito a sua amabilidade

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