Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Um caso passageiro (última parte)

 

(…)

Um amigo dizia-me que nunca tinha tido uma namorada feia. E, quando alcançava o efeito pretendido, acrescentava, solene: “Cada uma das minhas namoradas parecia-me a mulher mais linda do mundo”.

Quando ele dizia isto, eu lembrava-me da Teresa. Também me lembrava de um filme em que uma personagem secundária afirmava ter sempre namoradas feias, pois assim não corria o risco de uma desilusão amorosa. Tudo muito divertido, mas falso.

Teresa tinha uma voz irritante e a cara desagradável à primeira vista, um pouco assimétrica e demasiado angular e magra. Embora fosse perfeita de corpo, podia dizer-se que era uma mulher feia. Mas tudo dependia do ponto de vista, percebem? E, no entanto, ela sofria, como aliás todos nós sofremos com os nossos defeitos demasiado evidentes e em relação aos quais nada podemos fazer, mesmo aqueles defeitos que não temos e julgamos tanto possuir, que eles passam a fazer parte da nossa personalidade… Um bicho estranho e inseguro, o ser humano…

 

Foi num Outono que ela se apaixonou por mim. Eu gostava dela, juro que gostava, mas sabia ao mesmo tempo que aquilo não poderia durar eternamente. Para mim, era um caso passageiro, mas também os tempos prestavam-se a certa impaciência, pois sabíamos que o regime ia cair e agíamos como se o amanhã não existisse da mesma forma que o hoje. Aliás, Teresa era uma mulher excitante, embora não o imaginasse. Desajeitada na cama, mas de corpo perfeito, já o disse, e o sorriso dela encantava-me e eu gostava da conversa e da companhia, e tinha uma ternura especial. Toda a gente a achava simpática. Isto foi assim, mas com um pequeno detalhe, que afinal talvez não fosse um pequeno detalhe. Sinto-me embaraçado ao escrever isto, mas eu tinha uma reputação a defender, não podia assumir um namoro permanente com Teresa. Percebem? Ela era demasiado feia para ser a minha namorada, a única, quero dizer, a mais importante, enfim, a oficial.

 

Sinto vergonha ao confessar isto. Não entrarei em pormenores: foi na altura em que caiu o muro de Berlim, nesse mesmo inverno, num dia qualquer perto do natal. Fizemos amor nessa tarde e ela estava num estado de felicidade como nunca a vi.

É estranho: será possível que aquele fosse o momento mais feliz da vida dela?

À noite, fomos para uma cervejaria onde se reuniam os amigos, um grupo meio político, meio intelectual, que sentia a necessidade de querer mudar o mundo. Era a conjuntura certa para o fazer. Sei que bebi um pouco. Estava ao lado de Sara, uma colega lindíssima que, mais tarde, seria a minha primeira mulher (de quem me divorciei pouco depois). Acho que ficámos os dois muito afectuosos nessa noite e eu às vezes olhava para Teresa, sentada em frente a nós, sem nada para dizer, apenas aquela felicidade toda a diluir-se devagar, até ser uma pequena sombra.

 

Alguns dias depois, Teresa partiu para o ocidente. Eu entretanto apaixonara-me por Sara e não resisti, não protestei, não tentei dissuadir Teresa. Pelo contrário, até me ofereci para a acompanhar à estação de Nyugati. O que ela recusou. Nunca mais a vi. Por vezes, tinha notícias, que estava em França, que estava bem. E foi tudo.

 

E agora, doze anos depois, ali estávamos, a tentar compreender o que nos acontecera. A rua fria, o trânsito caótico; muita gente passava por nós, na azáfama das compras.

“Fico feliz por saber que está tudo bem contigo”, disse eu, “tenho que ir, um compromisso…”

Uma menina adolescente aproximou-se, a dizer qualquer coisa em francês.

“A minha filha…”, explicou Teresa.

“Que bonita”, elogiei. (Era parecida com a mãe). “E que idade tem?”

“Quase doze”.

“Então, boa sorte para ti”, acenei.

E Teresa respondeu: “Boa sorte”.

E eu desci todo o boulevard Erzsebet a repetir “quase doze, quase doze, quase doze”.

 

(fim)

 

publicado por Luís Naves às 12:52

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