Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Rumor apenas

O tempo encolhe-se na linhas de cor antiga,

a sépia as percorre como pauta.
 
Ouve-se a voz perdida entre as falésias,
levada pelo vento perturbado de espuma.
Ressoa na distância o adeus soprado, difuso,
já sem cor ou rosto. Rumor apenas.
 
Um adeus de oceanos sem carta que os una,
apenas rochas escavadas por dentro das tardes   
e o temor de não haver nem essa voz desvanecida.  
publicado por João Villalobos às 18:26

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

A Leitura

       (Série de autores convidados)

A voz corre numa toada monótona, as palavras umas atrás das outras, todas seguidas, a dizer de coisas distantes, de susto. Rosa Maria mergulha os olhos no jornal e recita a ladainha que só ela sabe decifrar no emaranhado enigmático dos sinais. É como uma sacerdotisa reverenciada, a oficiar culto, sentada no único banco da varanda que dá para a horta ensolarada. Os outros rodeiam-na, de pé. Chegam-se, na ânsia de ouvir, num silêncio de missa, sem tosses. Os homens desbarretaram-se, por respeito. Escutam, de olhos no chão, a querer decifrar a reza.

“...Os tanques saíram de madrugada, depois do sinal combinado entre os revoltosos, e as tropas do golpe tomaram de assalto os quartéis do regime. Houve disparos e há um número incerto de feridos, mas os militares sublevados levaram a melhor. As ruas estão a ser patrulhadas para assegurar a estabilidade e a cidade está calma. A junta militar que assumiu o poder restaurou os direitos cívicos e o general supremo fala hoje à nação”.

Rosa Maria ergueu a cabeça e olha em redor, mas não vê os rostos ansiosos, à espera de um sinal, de uma palavra dela. Está muito longe dali, da horta cheia de sol, onde os pássaros debicam a terra livremente.

Os outros aguardam em silêncio, enquanto ela se demora ainda, lá longe, na rua dos Mártires, percurso diário a caminho do hospital, na cidade agora em sobressalto. Conhece cada uma das pedras daquela calçada, com as suas marcas impressas de vidas antigas. Caracóis gigantes enrolados sobre si próprios, cornucópias de volutas caprichosas, vestígios de bichos há muito desaparecidos. Agora, quem sabe, estilhaçados sob as lagartas brutas dos tanques. 

– Acabou? – a voz do António Malhadas mais afoito, ou mais nervoso, a quebrar o silêncio. Os outros agitam-se, como num fim de missa. Perdeu-se o recolhimento. Os homens murmuram, desassossegados.

Rosa Maria olha em volta. Vê os estorninhos em voos incertos entre as macieiras, a pequena torre branca da capela a destacar-se sobre os telhados negros. Mas os olhares deles são interrogações. Que tropa revoltada é essa, mais os seus tanques? Os feridos, que é feito deles? E esse general, quem é? Algum malandro que para lá anda a comer à conta, é bom de ver. Todos iguais. Lutas de galos. Não se cheguem para cá.

– Acabou a notícia – confirma Rosa Maria, num gesto de mãos vazias, a mostrar que não tem mais palavras..

– Não diz mais nada. Depois vem a inauguração de um fontanário noutra cidade, com festa, desfile da banda e leitão assado. E o caso de um moço de fretes abalroado por um carro eléctrico. Partiu o farol dianteiro ao eléctrico, mas só fez um galo na cabeça. Querem que leia?

 – Aí valente, testa de boi – o Mário da Aninhas na gozação. Foi a risada geral. – Desses é que já há poucos –. Mais risos a estalar na tarde mansa. Rosa Maria também ri. O grupo esmorece depois, a pouco e pouco. Assoma de novo a inquietação, quase se pode palpar.    

 – Acha que vêm por aí, menina? – Pedro Santa, corpo mirrado de velho, fez a pergunta que andava no ar. Não seria a primeira vez que teriam de fugir da tropa fandanga, caída ali a comer do que havia, sem pedir licença, a desgraçar um pobre. A velha Matilde, que Deus tenha, é que contava, de ouvir contar.

Rosa Maria não sabia se os militares viriam, Vivia na cidade, conhecia-lhe o bulício de gente e carros. No hospital, mudava as ligaduras aos doentes, chegava-lhes um copo de água e os comprimidos, dava as injecções que os médicos prescreviam. Fazia-o com destreza, ninguém reclamava. E também ouvia os queixumes e limpava os corpos sofridos. Mas não sabia nada de golpes militares, ou de política. Só o que lia nos diários, de vez em quando, nos tempos mortos do hospital. De férias na aldeia, em casa da mãe, sabia ainda menos. Só podia ler-lhes em voz alta o jornal, trazido nessa manhã pelo carteiro. 

– A tropa tem mais que fazer. Guardar os quartéis, segurar aquilo. Para que viriam a este fim do mundo? Só se fosse para vos comer as morcelas e a carne das salgadeiras. Disso, eles têm lá muito.

Aquilo era para os animar. Na verdade não tinha a mínima ideia, mas não valia a pena estar a fazer mais histórias.  

Os homens sorriram, mais distendidos, mas também por delicadeza para com a rapariga. Ela tinha-lhes feito o favor, de outra maneira, não saberiam de nada, feitos uns brutos, pensou o Santa. E para afastar de vez o sobressalto, chegou-se à frente.

– A menina, se não fosse pedir demais, podia ler só mais essa, a do testa de boi?

Ela riu-se, fez que sim. E recomeçou a toada, as palavras umas atrás das outras, todas seguidas. Eles escutavam, em silêncio recolhido, de olhos no chão.

 

Filomena Naves

publicado por Luís Naves às 13:44

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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

O clube

 

O Clube de Jornalistas Fantasmas ficava num imponente edifício clássico a meio da rua Maximilien de Crancé, que começa (enfim, para quem venha na outra direcção, que acaba) no faustoso e longo boulevard Victor Hugo, não longe do museu Balzac. De manhã, a fachada do velho prédio era banhada pela luz de um Sol que a bruma invernal tornava ameaçadoramente plúmbeo. E quem atravessasse o passeio em frente, protegendo-se no casaco espesso, não adivinhava a vastidão dos salões escondidos além dos tapumes e das placas municipais que prometiam obras sempre adiadas.
À hora a que cheguei nessa noite, a cidade já dormia. Atravessei a rua vazia, desabitada, e entrei no clube, atraído por uma luminosidade imprecisa que, lá dentro, bem no interior, se derramava pelas escadarias ainda solenes, parecendo ressuscitar estatuetas embutidas e baixos-relevos que uma poeira fina cobria, como se aquelas figuras etéreas e paradas tivessem ganho roupagem nova, que apesar de tudo lhes dava sombria dignidade.
Henri de Beauvilliers estava de pé e foi o primeiro que me viu entrar. Os outros, melancolicamente sentados, olhavam a mesa onde ainda fumegavam pratos. Uma única lâmpada iluminava a cena, deixando o fundo escurecido (a enorme sala de que não se viam as paredes); e soava uma música ténue, que parecia dançar, sorrindo.
“Chegas mesmo a tempo, velho camarada”, disse Henri.
Charles de Lantenac cumprimentou-me, distraído, e retomou a conversa que interrompera: “Essa saudação já nem se usa. No nosso tempo é que se fazia jornalismo, com solidariedade a sério, compaixão e nervo. Acusava-se com a pena e não havia estas amarras tecnológicas que dizem mudar o mundo, mas que são a nova escravatura”.
“Agora, só há jovens proletarizados, sem memória dos velhos tempos, dos bons velhos tempos”, acrescentou Octave Maupin. “As redacções parecem um romance de Zola e os jornalistas já nem vão para os copos juntos”.
“E a liberdade de expressão? Que é feito da liberdade de expressão?” perguntou, irritado, Claude Fléchard, que envelhecera muito, mesmo para fantasma. “E nós éramos 800, uma elite, e agora há 80 mil jornalistas. E no nosso tempo havia 800 jornais e agora só há oito. A concentração capitalista…”
Eu sentara-me e tirava comida da travessa. O vinho era um excelente Pauillac.
“Temos que ir com os tempos”, disse Henri, “a opinião pública deseja coisas diferentes, já não gosta das nossas crónicas, agora quer notícias”.
“Um insulto!” indignou-se Fléchard.
“Felizmente, há clubes como este, para discutir como se devia fazer jornalismo”, opinou Maupin.
Henri perguntou-me: “Sabemos que agora escreves num blogue. Isso não é um submundo?”
A carbonnade estava uma delícia. Também provei um pouco do ragout e da raclette. Estava concentrado nos sabores, mas lá respondi: “Há algum lugar que, para nós, não seja submundo? Eu apenas escrevo umas croniquetas, para contar as minhas memórias autênticas. Deviam fazer o mesmo, abrir os vossos blogues. Na net ninguém percebe quem são os fantasmas.”
Mas a ideia não os entusiasmou. Ficaram o resto da noite a falar das desgraças, da degradação, dos assessores governamentais, de como tudo entrou em decadência, de como não há mais nada a fazer. Claro que já se esqueceram dos erros que também eles praticaram. Nem tudo no passado era assim tão bom: corriam rios de tinta em discussões ideológicas, na minúcia onde se baralhavam amizades e se faziam ódios que só a morte tornou irrelevantes. Mas a névoa do tempo pode criar o embalo de memórias felizes.
Fantasma
 
As memórias de um fantasma começaram a ser publicadas no Corta-Fitas, mas este amigo tem agora de emigrar para aqui. Gosto desta crónica já publicada e que era a sexta da série. Nesta nova vida (ou talvez não seja exactamente vida) será a primeira. 
 
 
 
publicado por Luís Naves às 20:08

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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Bilhete de identidade (I)

 

Este é um exercício comum nas redes sociais virtuais. Tentas definir-te em 25 pontos e, depois, envias a autocrítica ou o auto-elogio a 25 dos teus amigos. Ensaiei o exercício, mas temo não ter sido totalmente sincero, como desejava.

 

(Três primeiros pontos):

 

Chamo-me Lájos Kormányos, nasci em Budapeste, em 1961. Escrevo em revistas literárias e num jornal diário. Sobretudo crítica literária, onde sou exigente com a estrutura dos textos, a coerência do enredo e a qualidade poética das imagens. A crítica valeu-me inimizades, mas às vezes entrevisto autores, o que é mais neutro.

Sou também escritor. Tenho uns contos publicados em revistas literárias, alguns deles traduzidos para português por um amigo, que fala mal o húngaro e que (suspeito) reinventa parte dos meus contos. De resto, fora da língua húngara sou desconhecido. Aliás, na língua húngara também sou desconhecido.

É assim que ganho a vida. Gostava de escrever romances, mas não consigo controlar a massa de texto e ligar as diversas linhas da intriga. Tenho deficiências técnicas e na construção da frase. A minha prosa parece-me sempre mole.

(...)

publicado por Luís Naves às 10:21

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Bilhete de identidade (II)

 

 

(...)

(Foram três pontos ou mais do que três? Enfim, pouco importa. Seguem os elementos entre quatro e dez):

 

Os meus pais eram trabalhadores pouco instruídos. A minha mãe, Ana Fischer, que ainda é viva, nasceu em 36, numa aldeia no leste do país, junto à fronteira romena; o meu pai, János Kormányos, era refugiado da Transilvânia. No final da guerra, nos anos mais duros, ambos crianças, os meus pais aperceberam-se da incomum violência que se tornara comum em torno deles.

 A família Kormányos vivia em Makó. O meu pai brincava com os rapazes de uma família de judeus que habitava na casa ao lado. Um dia, chegou a milícia e levaram-nos. O meu pai perguntou o que acontecera e a minha avó, assustada, fê-lo jurar que não voltaria a falar no assunto.

A família Fischer também tinha um segredo, que me é difícil de contar. Quando os soviéticos invadiram a Hungria, entraram pelo leste. Em certas regiões, houve violações em massa e penso que a minha avó materna não escapou. No final de 45, nove meses depois da invasão, nasceu a minha tia Sara, cujos traços asiáticos lhe davam grande exotismo. Mas aquela beleza era um assunto tabu. Não me interpretem mal, só não se falava nisso: os meus avós adoravam especialmente a filha mais nova e eu, que era o sobrinho preferido e único dela, sempre pensei que a minha tia Sara era uma deusa (apaixonei-me por ela em 1970, mais ou menos um ano; eu com nove anos, ela com 24). Para mim, Sara era a mulher mais perfeita do mundo, ainda hoje o meu ideal de beleza.

A minha tia Sara morreu em 75, mas não quero falar nisso.

Os meus pais conheceram-se em Budapeste um ano antes de eu nascer. Eles trabalhavam na mesma fábrica. Sou filho único.

Nos anos 60 e 70 muita gente melhorou de vida, mas só me lembro de ser pobre, embora na altura não me apercebesse disso. Vivíamos numa torre de apartamentos em Kispest, um bairro que ainda hoje me provoca sentimentos contraditórios: subúrbio sujo e sem alma, cheio de vidas apressadas e de gente insatisfeita; e, apesar de tudo, conheço cada recanto daquela arquitectura desolada: os caminhos cheios de lama, as caras fechadas, os pátios vazios e o rumor do interior das casas, entre ervas daninhas que rebentam as lápides e grupos de jovens desempregados encostados à estranha decoração dos grafitos sem nexo.

O meu pai, que era comunista, queria que eu estudasse economia, pois tinha grande admiração pelo poder dos burocratas do ministério do planeamento. Mas fui um desastre nas cadeiras de marxismo-leninismo (não conseguia empinar aquilo) e tive uns problemas na faculdade, pois meti-me com um grupo de oposição. Eles eram mais poetas do que políticos e publicavam os poemas em samizdat, tudo inofensivo e inocente. Não fui preso, nem nada, mas apenas semi-expulso. Como o meu pai era do partido, transferiram-me (escolhi letras) e na altura comecei a trabalhar. Fiz serviço militar e tive dois empregos (numa loja do estado e num hotel, onde houve episódios divertidíssimos) antes de acabar o curso.

Depois, veio a transição e a queda do regime. Para os meus pais foi terrível: a pátria era agora livre, e isso parecia bom; mas a fábrica fechou e foram reformados com pensões incapazes de acompanhar a inflação. Tudo aquilo em que tinham acreditado acabava da pior maneira. O meu pai morreu em 1999, com o mesmo coração amargurado com que costumam morrer os melhores húngaros.

 

(Devia completar até ao ponto dez e já devo ter passado do quinze. Mesmo assim, continuo: estes são os últimos dez pontos da minha autocrítica):

 

Os meus amores sempre acabaram mal. Até hoje tive três relações mais ou menos duradouras, com mulheres que não me compreendiam ou, melhor, que nunca cheguei a compreender.

Uma delas chamava-se Sara e acho que foi o nome que me atraiu nela. Vivemos juntos oito anos. Era uma ruiva magra, com a pele muito branca, seráfica, um pouco distante. E foi essa parecença de esfinge que me excitou (imaginava que debaixo daquela frieza existia um vulcão de emoções).

Era imaginação minha, claro. Aliás, a minha imaginação costuma trair-me. Em tudo vejo conflitos e delírios, ardor e tormento, aventuras. Mas na minha vida não tive senão falsas partidas e pequenas ilusões. Um acumular incessante de banalidades. Viajei pouco, em vez de conhecer o mundo. Tive medo, confesso, medo do que estava além do espaço limitado onde passei os dias, sem reparar que eles passavam mesmo, que se gastavam, que não havia mais nada, depois de estarem consumidos.

 

(último ponto):

 

Não tenho controlo sobre o meu destino e nisso sou igual às minhas personagens. Um dia, tentarei escrever um romance, mas não sei se tenho talento, palavra que um crítico literário nunca deve usar. Gosto da língua húngara, mas acho que podia escrever em qualquer outra língua.

Chamo-me Lájos Kormányos. Sou um pequeno escritor de livros de pequena tiragem.

 

(E agora vou enviar isto para 25 amigos; cada um deles terá de escrever a sua própria história).

 

publicado por Luís Naves às 10:18

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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Uma palavra pequena

Entre todos os gestos por levitar

um existe que aproxima do céu,

que eleva e queima na passagem

como fogueira de Junho. 

 

Quando trocamos de tempo,

distendes os braços em forma de gato

e a luz reveste de mercúrio a tua pele,

com memórias futuras a semeia,

pão de Páscoa.

 

Então subo por ti adentro e vou. 

 

Fresca é essa vida que celebras

em língua desconhecida,

solar a tarde que paira sobre a cidade

com anjos nos seus degraus. 

 

O amor uma palavra pequena.

 

publicado por João Villalobos às 15:01

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