Sábado, 28 de Agosto de 2010

Cena de ciúmes

Uma sombra de cinza pairava sobre aquela parte da cidade, como se houvesse ali uma maldição particular que enchia os corações de escuridão.
Desci da carruagem a sentir nojo pela rua enlameada, a olhar a medo as lúgubres fachadas. O cocheiro largou para o centro, a chicotear os cavalos e fiquei sozinho. Fui tocado ao de leve pelo frio cortante do vento, num arrepio.
Encontrei os polícias numa rua interior do bairro operário. Estavam dentro de um prédio de cinco andares, ruidoso e sobrelotado. Os curiosos indicaram-me o caminho. Julgaram que eu era também polícia e alguns chegaram a tirar os barretes da cabeça. Fui subindo, bastava avançar para o ponto onde houvesse mais gente com ar pasmado. Segui por corredores esconsos e cheguei ao buraco onde estavam os detectives e o médico legista. E os dois corpos das vítimas.
A mulher estava meio despida, inerte, o cabelo louro e comprido a cobrir-lhe a cabeça como um véu. O braço esquerdo subia, elegante, para o planalto da cama e ali jazia, muito iluminado.O amante estava encostado à parede, grotesco, a cara desfeita pelo tiro e os braços abertos, numa incredulidade.
Aproximei-me do detective que conhecia melhor, Braskó, e saudei-o.
“Vocês são piores que as piranhas”, disse Braskó, “cheiram o sangue à distância”.
“Sabes como uma cena de ciúmes atrai sempre a atenção dos leitores. E um crime suburbano vende jornais”.
O detective largou uma sonora gargalhada, que destoava daquele espectáculo. E disse:
“A burguesia não tem emenda, sempre fascinada pelas misérias dos seus operários”.
“Como é que se chamavam as duas vítimas?”, perguntei, a tentar ignorar o comentário dele.
“Ele era sapateiro, um tal Imre Mozgó. Nasceu em 1881, portanto, tinha 29 anos”.
“Mozgó [mexido*]? Brincas?”
“Assim mesmo. Ela era Dora Szábo, 20 anos. Operária. Linda de morrer”.
Estavam a virar o corpo e tinha sido de facto uma mulher lindíssima. Mantinha uma expressão angelical no rosto. Parecia simplesmente adormecida.
Tentei de imediato confirmar a história que se contava:
“O marido surpreendeu-a com o amante e matou os dois a tiro. Um crime de paixão. Julgamento sensacional e sai em liberdade. Já o prenderam?”
“A história não é bem assim”, disse Braskó. “Ela não era casada”.
“Mas o assassino matou por ciúmes?”
“Ciúmes, maldade, sei lá...”
“E prenderam-no?”
Braskó segredou-me onde o poderia encontrar. O suspeito ainda não seguira para a sede da polícia, no centro da cidade. E eu pensei que ali era o fim do mundo: pessoas que não se casavam, que se traíam como animais. O preso teria na mesma a compreensão do público e da justiça.

 

O assassino estava sentado, muito pálido. Parecia alguém que saíra de um sonho mau. Dava dó ver aquele ser esfrangalhado, desatento das perguntas.

Fora fácil convencer o polícia a deixar-me falar dois minutos com János Toth. A história já começara a correr em toda Budapeste, em forma de boatos, e nestes casos havia sempre uma onda de simpatia pelo marido enganado que lavara com sangue a sua honra. Expliquei ao sargento de guarda que um testemunho em primeira mão serviria para tranquilizar a opinião pública. E dei-lhe uma pequena gorjeta, para o convencer. Ainda bem que chegara cedo ao local do crime. Tinha o exclusivo.
Mas quando fiquei em frente a Toth tornou-se de repente mais difícil raciocinar. Pensei em perguntar-lhe primeiro porque matara os dois amantes. Podia ter morto apenas o sapateiro e poupado a mulher. E lembrei-me do que dissera Braskó, ao falar da maldade. Toth tinha um olhar mesquinho.
“Avisei que os matava”, disse Toth, sem que eu fizesse alguma pergunta.
“E como os matou?”
Ele contou toda a cena. Vira-os chegar de mãos dadas. Era noite. Eles subiram para o quarto e ele sentira uma brusca vontade de matar. Esperou um pouco. Subiu também. Arrombou a porta com um pontapé. A porta cedeu de forma mais fácil do que pensara. O sapateiro levantara-se e levara com um tiro na cara. Não se mexeu mais. E ela pediu-lhe misericórdia, mas Toth disparou.
“Actuei num impulso incontrolável”, esclareceu Toth.
“Compreendo”, disse eu. “Lavou a sua honra”.
“A Dora era minha ou de ninguém”.
“Quando a conheceu?”
“Há um ano”.
“Eram casados?”
“Não acredito em igrejas”.
“E viviam juntos?”
“Ela era minha. Avisei o Mozgó para se afastar”.
Foi neste ponto que os polícias me interromperam. Não consegui fazer mais nenhuma pergunta. Chegara o carro celular para levar o preso. Toth ainda sorriu para mim, com ar sinistro, e pensei que o assassino se iria salvar no tribunal. Crime de paixão, impulso incontrolável, um caso de honra. E, apesar de tudo, havia aquele ar angelical da morta, que tornava impossível o relato. Só me ocorreu esta ideia quando já levavam Toth e fiquei tão irritado com a minha incompetência que nem me lembro de quem me levou até à irmã de Dora.

 

Georgina era uma mulher a rondar 30 anos e que engordara precocemente. A casa, enfim, o miserável quarto onde vivia mal dava para tantas crianças. Contei pelo menos quatro filhos. Apesar da pobreza, havia certa dignidade, abalada por uma perda sentida.
Ao ver os olhos congestionados do choro, senti pudor em perguntar àquela mulher porque razão a sua irmã atraiçoara o marido. Enfim, não o marido legal, mas o marido de facto. Fiz uma pergunta redonda, que a fez falar:
“A Dora era uma mulher honesta, senhor jornalista. Era uma mulher alegre, bondosa e trabalhadora. E agora morreu, sem fazer mal a ninguém”.
“Que idade tinha a sua irmã?”
“Tinha só 20 anos”.
“E o que fazia?”
“Trabalhava na fábrica de fiação. É onde trabalha toda a gente do bairro. Uma vida dura, a nossa. Às vezes não há trabalho. Não temos comida para dar às crianças”.
“E a senhora é casada?”, perguntei, porque não vira um homem na casa.
“Sou viúva, senhor. E a minha irmã era o meu amparo. Ajudara-me a tratar dos meus filhos, todos órfãos coitadinhos. E o homem dela, o Mozgás, também me ajudava”.
“Mas, enfim, o homem dela não era o Mozgó, era o Toth, aquele que a matou”.
Georgina ficara paralisada, a olhar para mim. Disse que havia um equívoco. E contou, aos soluços, a sua versão:
“A Dora conheceu o Toth há um ano. Ele prometeu-lhe casamento, disse que tinha dinheiro, mas era um inútil, que vivia do roubo. Os dois viveram juntos algumas semanas, mas ele batia-lhe. Foi pancada de criar bicho, senhor jornalista. Uma noite, a minha irmã apareceu aqui toda amassada, com um braço partido que a impediu de trabalhar durante três meses. Nunca mais voltou para o Toth e ele fazia-nos ameaças. Chegou a ameaçar que nos matava a todos, incluindo os meus filhos, se ela não regressasse. E a Dora manteve-se firme. Um dia, quando ia para a fábrica, ainda estava escuro, a minha irmã deparou com o Toth, que a esperava num descampado. Começou logo a bater-lhe e quase a matava. Mas correram alguns operários e o cobarde fugiu. A polícia nunca nos defendeu. Servimos só para trabalhar e ninguém nos protege. O que será dos meus filhos, agora? O que será de mim?”
“E o Mozgó?”
“Era um bom homem, o Imre. Um bom sapateiro, um rapaz bom”.
“E tornou-se amante da Dora?”
“Amavam-se”.
“E quando se conheceram?”
“Em Abril, há uns seis meses”
“Mas se ela deixara o marido...”
“Qual marido?”
“O assassino, o Toth...”
“Ele não era o marido”.
“Então, como se explicam os ciúmes? O Toth matou para lavar a honra”.
“A Dora e o Imre iam casar, senhor jornalista. O Toth não matou para lavar a honra”.

 

Senti em todo o corpo uma angústia terrível e não sabia libertar-me daquela vaga de emoções confusas. Era uma manhã gelada de caras tristes. Fechei o meu capote e tive um arrependimento súbito por ter trazido o chapéu mais elegante. Andei pela rua enlameada e, sem pensar muito no que fazia, com um asco na minha disposição, dirigi-me à maneira dos sonâmbulos para uma pequena taberna escura. Não me saía da cabeça a imagem, com impressionante precisão, da face angelical da morta. E pensei que a minha própria pele enregelada era um prolongamento do corpo inerte de Dora. Em Budapeste já contavam a história de dois amantes mortos  pelo marido enganado e o mundo parecia-me deslocado do eixo, uma mentira a esvair-se sob a mortalha cinzenta das nuvens que tombavam na terra, tapando os segredos dos homens.
Pedi ao taberneiro uma aguardente bem forte e só depois de a beber de um trago pressenti a presença de um homem ao meu lado, encostado ao balcão da taberna.
“Chamo-me Kolozsvári e assisti à ameaça que o Toth fez a Mozgó”, disse ele, sem preâmbulos.
“Quando é que isso aconteceu?”
“Na semana passada”.
“Conte lá, senhor Kolozsvári”.
“Foi aqui mesmo nesta taberna. O Imre estava tranquilamente a beber uma caneca de cerveja, conversávamos sobre coisas da vida”.
“O senhor era amigo dele?”
“Muito amigo dele. Era um bom homem, o Imre. Valente e generoso”.
“E a ameaça...”
“O Toth entrou e soubemos que ia haver sarilho. Está a ver? O meu amigo ia casar com a Dora e o Toth achava que tinha direitos sobre ela, porque tinham vivido juntos durante duas semanas, no inverno passado. Aquele facínora avisou que o queria longe da rapariga e o Imre respondeu com firmeza que se amavam e iam casar. De repente, o outro tirou do bolso uma navalha de barba e ameaçou-nos. Todos nos levantámos, mas era tarde; ele agarrou o Imre e encostou-o a uma parede – foi ali, senhor, - agarrou o meu amigo com uma força bruta e não pudemos fazer nada. Estávamos tão surpreendidos. Foi tudo demasiado rápido e nem reagimos. De repente, sem aviso, o Toth traçou o Imre na cara. Fez um golpe seco e rápido. Depois, largou-o. O Imre contorceu-se, gritou, ficou de joelhos à mercê dele, mas o outro recuou. Nós avançámos para ele, dispostos a agarrá-lo, mas ameaçou-nos com a navalha. E disse assim: 'Isto é só um aviso. Longos dias têm cem anos. Se voltas a tocar na Dora, mato-te como a um cão'. E saiu a correr, sem nos dar tempo de o perseguir. O Imre sangrava da cara, mas o golpe foi superficial. Ele nem deve ter dito nada à Dora, que era uma mulher muito bonita e morreu por ser a mulher mais bonita que já alguém pôs os olhos em cima. E quando penso nisto, já nem sei se o Toth matou por ter perdido a Dora ou por odiar o Imre. É uma tragédia, senhor, uma tragédia”.

 

Quando regressei ao jornal, Braskó deu-me boleia na sua tipóia. Viemos silenciosos todo o caminho, mas a meio do percurso, o detective perguntou-me o que dissera o assassino. Contei-lhe o relato de Toth e ele riu-se, enquanto acendia o charuto que eu lhe oferecera.
“Um mentiroso, aquele malandro. Já tem a defesa toda organizada, mas não tem hipótese de escapar à forca. Vai dizer ao juiz que a cegueira do ciúme leva o ser humano a fazer o impensável. Já estou a ver o choradinho. Mas ele entrou no quarto sem fazer barulho e surpreendeu os dois amantes a dormir. Primeiro, matou a rapariga com um tiro à queima-roupa...”
“Claro, daí o aspecto sem sofrimento...”
“Naturalmente. O sapateiro era o alvo principal. O malandro queria fazê-lo sofrer. Que ele tivesse tempo de perceber que a amada estava morta. Só depois o abateu. As testemunhas ouviram os tiros com um intervalo de quase cinco minutos. Ninguém fez nada por medo. Podiam ter salvo o sapateiro, ou talvez tivéssemos agora mais algumas vítimas a lamentar”.
“Portanto, aqui não houve ciúmes”.
Braskó fez cintilar o charuto, foi envolvido por um nuvem de fumo, ficara pensativo com a minha pergunta.
“Há ciúmes, talvez. Os ciúmes que os teus leitores querem. Eles tornam a história mais confortável. Dessa forma, não há tanta malvadez, nem monstros que odeiam a felicidade dos outros e que não suportam ver a beleza ou aquilo que é puro. Isto ajuda a explicar o abismo. Os ciúmes explicam as trevas e tudo o que não se pode dizer. Explicam o contexto”.
“É melhor assim. Dora era tão bonita, que o Toth enlouqueceu de ciúmes”.
“Demasiado bela, como um anjo insuportável”, disse Braskó, ao encolher os ombros. 

 

Lajos Kormányos
  

*nota do tradutor
 


 
  

 

publicado por Luís Naves às 15:02

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3 comentários:
De Sofia Loureiro dos Santos a 9 de Outubro de 2010 às 17:59
Então, qual é o seu problema?
De Sofia Loureiro dos Santos a 9 de Outubro de 2010 às 18:00
Luís, não fui eu que coloquei o comentário acima. Se fosse possível, gostava que me facultasse o seu email para o contactar.
Obrigada.

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