Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

O décimo terceiro dia (segunda parte)

 

 (...)

Oito

Foi um dia muito difícil, o oitavo consecutivo sem a droga. Acordei com dores em todo o corpo. O meu interior parece arder, como se alguém tivesse despejado ácido puro para dentro de cada fibra.

Apesar das dores, tentei sair de casa: o prédio está devastado pelo interior, mas sinto o rumor dos que ficaram. Não são muitos. Quase toda a gente fugiu para fora da cidade; os que tinham carro ou gasolina; alguns vão talvez sobreviver, sobretudo os mais novos; o que me dá certa esperança. Talvez nem tudo acabe desta forma. Não há água nem electricidade.

Quando saí do meu prédio, a rua estava vazia: havia carcaças de carros incendiados, lixo arrastado pelo vento, corpos abandonados e que ninguém se deu ao trabalho de enterrar. E uma angustiante quietude tomara conta dos edifícios, onde se encolhiam as pessoas assustadas, cuja presença invisível se adivinhava.

Caminhei com prudência, encostado às paredes, tentando fazer o mínimo de ruído. As dores no corpo impediam-me de andar depressa; o frio era cortante, ao fundo havia colunas de fumo negro, incêndios; e o cheiro era de plástico queimado, mas também de podridão e morte.

No centro comercial do bairro, todas as lojas tinham sido pilhadas. Eram carcaças vazias. Não havia sinal de comida ou de remédio, nada, nem vivalma, pareceu-me a princípio. Como se o mundo se tivesse esvaziado e eu fosse o único ser que restava: é que nem se avistavam pássaros ou cães abandonados, como se aquela loucura dos homens assustasse os próprios animais.

Estava atento a todos os perigos, mas acho que tive sorte em não ser atingido pela barra de ferro que zumbiu a centímetros da minha cabeça. O ataque surgiu do nada. Desviei-me no último momento, por instinto, e só vi passar aquela violenta sombra, que se estatelou no chão, com a inércia. O homem parecia uma múmia e estava quase cego, só por um triz não me acertara, mas agora nem sequer conseguia erguer-se. Rastejou um pouco, virou-se para mim, implorou. Estava num estado de remissão mais avançado do que o meu, pelo menos do décimo dia de interrupção. Eu ficaria assim, no máximo dentro de dois ou três dias: com a pele carcomida, sem cabelo, dentes ou unhas, chagas pelo corpo, manchas horríveis e dores insuportáveis.

O homem implorou ajuda. Um comprimido, dê-me um comprimido, disse. O que eu não tinha. O que também procurava. Respondi que não tinha nenhum comprimido comigo. Foi nessa altura que o reconheci: outrora, tinha sido um vizinho simpático e de aspecto saudável. Engenheiro. Parecido comigo: sacrificara tudo para prolongar a sua vida. Agora, a arrastar-se pateticamente no chão, parecia uma tartaruga de pernas para o ar. Não conseguia sequer erguer-se. Pediu-me ajuda. Mas ele quase me atingira com a barra de ferro. Eu teria morrido certamente, se lhe restasse um pouco mais de força.

Pensei em revistar-lhe os bolsos, à procura de alguma coisa que me pudesse ser útil, mas ele tinha a barra de ferro na mão e ainda podia usá-la.

Por isso deixei-o ali, a morrer devagar.

 

Nove

Em casa, não há mais nada para fazer. Resta-me esperar pelo inevitável. Sentei-me e o tempo passou, entre recordações; lá fora, os ruídos; por vezes gritos de morte; correrias, depois silêncios; a escuridão.

Agora penso. E se tivesse escolhido uma vida normal?

Abdiquei da família e do futuro. Prescindi dos luxos. Esta foi a minha única obsessão: viver, e para isso não precisava de ser feliz…

(continua)

publicado por Luís Naves às 18:08

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