Sábado, 17 de Abril de 2010

O seguro

Vasile conheceu o duplo dez minutos antes do atropelamento. Era um rapaz alto, vestido com uma roupa igualzinha à sua, jeans no fio, camisa azul, grandes manchas escuras de suor debaixo dos sovacos. Tinha a barba mal-feita e começou a imitar o seu sotaque moldavo.
“Os gajos falam assim”, dizia, para o turco, “abrem as palavras como se fossem latas de conserva”.
E ria-se.
Vasile tinha passeado meia hora na companhia do turco (não era turco a sério, aquele era o seu nome de guerra). Andaram tranquilamente pelo jardim e, depois, para se ver que Vasile passara ali na zona do centro comercial à hora certa, ainda meteram conversa. No café, perguntou pelas horas; e o proprietário, desconfiado como convinha, apontou para o grande relógio na parede:
“Não sabe ver?”
“Nem tinha reparado, senhor”, esclareceu o moldavo, como se estivesse muito surpreendido: “Quem diria? Já cinco e meia”.
Ainda pensou que o amigo lhe iria pagar um bagaço, mas beberam bicas. Depois, ele e o turco saíram para a rua e encontraram-se com o duplo nas arcadas de um prédio, num sítio escondido.
“Percebeste como é que ele é?”, questionou o turco.
E o outro disse que sim.
“É mais baixinho do que eu pensava”, afirmou o duplo.
“Faz-te mais pequeno. Agora, não vais roer a corda”, cortou o turco.
“Não te preocupes, pá. É fácil, não stresses”.
Vasile e o turco foram para o carro e já nem viram o que aconteceu depois, a parte do atropelamento propriamente dito. Acontecia sempre mais ou menos a mesma coisa: o duplo punha-se à frente de um carro que viesse devagarinho, de preferência na passadeira, e durante a travagem desequilibrava-se, caía sobre a parte de cima do automóvel e rolava espectacularmente pelo chão. Tinha imenso treino daquilo, fora jogador de futebol. Depois, levantava-se, combalido, a esfregar o joelho direito. Ou se a coisa tinha corrido bem, ficava no chão, a rolar como se tivesse levado um tiro no estômago, e a gritar de dores imaginárias.
“O meu joelho, o meu joelho, estou desgraçado”, berrava o duplo, se do carro saísse uma mulher impressionável. Se ainda por cima fosse gira, deixava-se amparar.
Seguia-se a charada dos números do seguro. “Já me estou a sentir melhor”, dizia o atropelado, depois de ter sacado a informação. “Até bastante melhor. Já passou, acho eu”, acrescentava, enigmático, sem se esquecer do sotaque moldavo e de acrescentar o nome de vítima: Vasile Stepanici. Depois, era sair dali a coxear, antes das ambulâncias chegarem. Andava três quarteirões, enfiava no carro do turco, estacionado longe da vista. Era assim, aquilo que o advogado viria a chamar modus operandi.
“Foste convincente?”, perguntou o turco.
“Fiz igualzinho a um jogo de regionais em que empatámos porque consegui expulsar o goleador deles. Atirei-me para o chão de tal maneira que o árbitro ficou mais aflito do que eu”.
“E agora?”
“A condutora era uma mocinha ingénua. Até chorou. Tens aqui o número do seguro dela”.
O turco encolheu os ombros e ala, que se fazia tarde.

 

O duplo era adepto de reminiscências futebolísticas. Todas as histórias convergiam num jogo em que lixara o joelho. Não aquele jogo, em que fingira, mas outro, a sério. Tivera direito a ovação, à saída da maca em que o tiraram, como se faz aos feridos da guerra, mas com as palmas. Fim de carreira e ainda nem completara 20 anos. “As malditas infiltrações, o filho-da-mãe do massagista”, resumia. “Nada funcionou. A lesão era tramada como o diabo, os gémeos espatifados, o menisco arrebentado. Uma vez, o sacana do treinador pôs-me a jogar a dez minutos do fim, que tínhamos de ganhar, precisava do meu sacrifício, e às tantas senti aquele puxão que até parecia que me estavam a arrancar o joelho com um alicate. Doeu que se fartou. Sabes o que é uma dor no joelho, Vasile? É uma dor fodida”.
Uma pausa, o siêncio, depois o final injusto da história: “Nunca mais andei como deve ser. Um dos rapazes da equipa, que não tinha nem metade do meu jeito, acabou no Benfica. Mesmo como suplente, ganhou um dinheirão. Era um sarrafeiro do pior, aquele, um cepo dos que se põem a jogar à frente dos nove defesas só para mandar um gajo dos outros para o estaleiro. Não jogava um caracol, mas ganhou para cima de uma pipa de massa”.

 

Vasile não era um rapaz brilhante. Por esta altura do campeonato ainda não tinha percebido porque razão o turco se interessara por ele. Às sete da tarde, quando chegaram à garagem os outros membros da quadrilha, Vasile ainda pensava que o iam contratar para serviços de reparação automóvel. Não percebia nada de motores, carburadores e válvulas, mas um tipo sempre se desenrasca, pensou. Aprenderia depressa, pensou. Era melhor do que passar fome, pensou.

O turco tinha um martelo na mão e disse assim:
“Amigo Vasile. Chegou a hora”.
“A hora de quê?”, perguntou o moldavo, antes de sentir uma dor devastadora no joelho direito. Rebolou no chão, a agarrar-se ao joelho, a contorcer-se como um louco, a gritar como fazem os porcos no matadouro. Guinchou a plenos pulmões, num uivo comovente que chegou a alarmar o turco e os restantes membros da quadrilha. Uma berrata que só eles ouviam.
“Parecia o Maradona a lesionar-se”, comentou o duplo.
“Se calhar, martelei-o com força a mais”, ainda temeu o turco.
Depois, a tempestade amainou. Vasile já só chorava de dor insuportável. Estava em posição fetal. Disse qualquer coisa incompreensível em moldavo. E então perguntou, numa voz sumida:
“Porque é que fizeste isto, turco?”
“Se queres a tua parte, tens de ir ao seguro reclamar”, respondeu o turco, implacável.

 

Um mês depois, quando sacaram a massa, o duplo ainda lhe deu boleia até à estação. Explicava ao amigo moldavo que se fosse à polícia fazer queixa ainda ia preso, por cumplicidade com o esquema da quadrilha, que no fundo não prejudicava ninguém, porque o seguro pagara a julgar que ele, Vasile, tinha sido o atropelado.
“E levas 10%, não é nada mau. Mil euros por um joelho partido é mais do que eu ganhei. E o seguro pagou os tratamentos. E tiveste sorte do turco não te dar uma martelada na cabeça quando ameaçaste ir à polícia. Ele às vezes tem uns vibes assim para o bruto”.
Vasile foi coxeando até ao cais de embarque. O duplo levava-lhe a mala leve. Ouviu-se o uivo do comboio, ao fundo.
“Então, boa sorte para ti, amigo Vasile”.
O comboio parou. O moldavo subiu para a carruagem, em dificuldades, e o atropelado passou-lhe a mala.
“Tu és bom homem, não és como o turco”, disse Vasile. “Espero que voltes a jogar futebol”.
“Não é possível. Estou todo espatifado”.
“Então, que tenhas sorte. E não te magoes nos atropelamentos”.
“E tu, tem atenção a gastar a tua massa”.
“Vou ter cuidado”.
“O seguro morreu de velho”.
Disseram adeus um ao outro e o comboio lá seguiu, aos solavancos a princípio, como se coxeasse levemente sobre os carris, depois num deslizar perfeito, a escorregar na linha.


 

publicado por Luís Naves às 17:11

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4 comentários:
De José Doutel Coroado a 17 de Abril de 2010 às 17:32
boa short-story.
gostei muito do ritmo que conseguiu dar à "estória".
De Luís Naves a 17 de Abril de 2010 às 17:35
agradeço o seu comentário

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