Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

O décimo terceiro dia (última parte)

 

 (...)

Dez

O remédio não apareceu num só dia, foi aparecendo. No início, era um segredo bem guardado. Dizem que as pessoas que estão a tomar o elixir há mais tempo têm quase 150 anos, todas milionárias: talvez seja boato, mas se for verdade, significa que inventaram os comprimidos no final do século XX, ainda eu não era nascido. O nome do inventor nunca foi divulgado: oficialmente, o remédio foi desenvolvido por cinco equipas separadas, mas já li que essa é uma história fabricada. O segredo manteve-se durante décadas porque a empresa que tinha a patente decidiu comercializá-la apenas para pessoas muito ricas, dispostas a pagar milhões pela fonte da juventude. Os componentes da fórmula secreta são raros (sabe-se que usam grandes quantidades de plantas tropicais difíceis de cultivar); e então a produção começou a ser menor do que a procura; e, de súbito, o desespero, as primeiras pilhagens de farmácias, o início da bola de neve.

Sendo impossível satisfazer toda a gente, foi mais rentável satisfazer apenas a minoria. As pessoas estão prontas a pagar muito dinheiro por aquilo que é raro. Assim, os primeiros a tomar o elixir da juventude teriam talvez 40 anos na altura: um comprimido por dia e a degradação das células era reduzida para metade; tomado todos os dias, durante um ano, era como se a pessoa envelhecesse seis meses; dez anos de remédio e cinco de envelhecimento. Parece bater certo: a fórmula deve ter sido descoberta nos anos 90 do século passado.

Tomo este remédio há 50 anos, envelheci o equivalente a 25. Tinha 40 anos quando comecei: a sorte fizera-me ganhar dinheiro na bolsa, parece que foi há uma eternidade (sou veterano da segunda guerra da Coreia); depois, preferi a prudência, ao gerir a minha pequena fortuna. Nada de mansões ou carros, família ou vícios. Só dava para um. Investi de forma prudente, para nunca perder muito: sobrevivi a várias flutuações e até a duas crises financeiras, mantendo sempre um bom retorno. Sempre tive uma casa modesta, vida frugal. Todo o meu dinheiro vai para comprar aqueles comprimidos: aos 90 anos, pareço ter 65.

Mas o elixir da juventude tem um efeito secundário: é preciso tomar um comprimido diário ou o efeito inverte-se, numa escala mais rápida: a primeira vez sem comprimido equivale a um dia de degradação celular; mas ao segundo dia, perdemos dois de vida; e ao terceiro, quatro; ao sexto, um mês; ao décimo, 16 meses, quase ano e meio; ao décimo terceiro dia, quase dez anos. Nunca ninguém sobreviveu ao décimo terceiro dia de interrupção.

 

Onze

Como chegámos a este ponto? O orgulho é o pior pecado do homem, o que tem consequências mais destrutivas. É o pecado mais inútil também, pois tudo aquilo que fizemos está agora em ruínas. Perdido e esquecido.

 

Doze

Já não tenho mais forças para escrever. Amanhã é o décimo terceiro dia.

publicado por Luís Naves às 17:58

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2 comentários:
De Once a 12 de Janeiro de 2009 às 09:48
fantástico.
Parabéns.
De Luís Naves a 12 de Janeiro de 2009 às 11:30
agradeço o seu comentário

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