Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
London distance call

Markets fall all over

e eu sem fumar a minha cigarrilha.

That's all I care.

There's a blonde star fainting in the spotlight e o som dos talheres,

some tea on the other table & 

a nice old couple

finishing dinner, with no words left for each other.

American fathers fathers

who lost their voices somewhere in the past

or whatever...You know...

Onde estás? O omnipresente piano deste hotel que é o mundo inteiro

desatina.

And there's no will for jazz

or flirting with the charming short waitress who aks if

"Is everything ok, sir"?

 

Só um jornal cor de salmão por companhia e tu algures,

distante fonte de alegria.

 



publicado por João Villalobos às 22:03
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Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
A Floresta cor de sangue

I
Rivaud ouviu um grito e quando olhou para trás, assustado, ainda viu o seu companheiro, Leduc, tombar inanimado. O arqueólogo tinha sido atingido por um insecto e desabara entre arbustos. Embora estivesse nos limites das suas forças, Rivaud correu na direcção do ferido. Descobriu o corpo inerte, o aguilhão cravado nas costas como se fosse uma faca. Leduc agonizava e lançou um derradeiro suspiro, morrendo ainda estendido no chão, sem dar tempo sequer para o jovem biólogo o segurar.
Não havia mais nada a fazer, mas este foi, para Rivaud, o momento de maior desespero. Olhou para a floresta que o cercava, esmagado por uma angústia que até aí jamais sentira. A selva parecia escorrer sangue, amálgama de imensas copas com mais de duzentos metros de altura, um muro de folhas que escondia a luz pálida da atmosfera e se propagava em distâncias que quase não se podia conceber, quando olhado daquele ponto de vista baixo, do chão esponjoso. Formas de espécies não catalogadas, com flores bizarras e perigosos insectos do tamanho de um punho; mas sempre aquela mesma cor vermelha, fantasmagórica e cheia de sombras. Uma molécula semelhante à clorofila, mas púrpura, transformara o mato num peculiar cenário: dir-se-ia que a selva era exclusivamente feita de tecidos longos, hastes e troncos, (pareciam panos tingidos com o mais berrante do roxo ao rosa), raízes que vinham do topo das árvores (cinco vezes maiores do que as mais altas da Terra), e toda a arquitectura da natureza funcionava como uma gigantesca e profunda caverna, onde flutuava um cheiro a podre e um ruído de fundo, poderoso, que lembrava uma sinfonia ameaçadora, interpretada por instrumentos imaginários.
Segurando o corpo de Leduc, Rivaud escondeu-se nos arbustos, atento ao voo dos mortíferos insectos. Por instantes, o biólogo entrou em pânico; mas, com o tempo a passar, começou a acalmar-se. O fato térmico estava rasgado e deixara de o proteger contra a temperatura de 50 graus. Sentia febre. Mal conseguia respirar e perdera demasiada água. Desfalecia, poderia entrar em choque se não se acalmasse, e foi o intenso treino que lhe permitiu ultrapassar aquele momento. Sentou-se, agarrado ao cadáver do arqueólogo, e controlou a respiração, escondido dos velozes insectos sem nome, que zumbiam ainda. E enquanto esperou que passasse aquela tempestade, um pensamento assaltava-o: como pudera aquela expedição correr tão mal?


II

Uma semana antes, um grupo de quatro exploradores tinha descido naquele ponto da selva densa do Planeta Golem. Levavam equipamento suficiente para enfrentarem qualquer perigo, incluindo fatos térmicos que lhes permitiam manter o corpo em temperatura segura e até escafandros. O local da descida não tinha sido escolhido ao acaso. Cinco anos antes, uma sonda automática fotografara o que parecia ser uma construção no meio da floresta sangrenta. Podia ser uma pirâmide, meio oculta na folhagem vermelha, ou uma cúpula de pedra ou ainda uma superfície espelhada que, de alguma forma, reflectia a luminosidade acima das copas do arvoredo. As imagens não permitiam identificar o objecto, mas era sem dúvida artificial. Em certas fotografias, quase parecia uma cara humanóide de grandes dimensões.
Golem ficava fora das rotas das viagens espaciais e tinha interesse remoto, pois não parecia haver recursos estratégicos naquele planeta do sistema de Sirius. Apenas a opressiva floresta, coberta por um efeito de estufa que tornava o clima demasiado quente para o ser humano. Mas a descoberta de traços que poderiam ser de uma civilização perdida mudara a estratégia da exploração. Nos anos seguintes, foram enviadas sete sondas automáticas, mas nenhuma delas conseguiu produzir qualquer dado significativo, excepto imagens de grande beleza da construção, que ganhava novos contornos, algo fantasmagórica e imprecisa. Um facto tornara-se evidente: Golem parecia inexpugnável.
Os voos com levitadores não permitiram reconhecer o local exacto da construção. Ou teria sido engolida pela selva e não estava visível. Ou brilhava apenas em certas ocasiões. Foram usadas técnicas variadas, mas o arvoredo era impenetrável, com três possíveis objectos dispostos em posições distantes um quilómetro umas das outras. Os restos de uma cidade de uma raça estranha? Ninguém sabia.
Por isso, foi enviada uma expedição de quatro homens armados, dispondo de aparelhos de comunicação, alimentos e água. Desceram de levitadores especiais por longas cordas e entraram na selva. Sabia-se a posição das pirâmides ou torres, ou das construções alienígenas; por isso, tinham descido a menos de um quilómetro do local estimado, montando acampamento. Quando encontrassem o objectivo, abririam uma clareira que permitisse poisar aparelhos com mais material e reforços humanos.

 

III

O primeiro a morrer foi Delba, que comandava a expedição. Foi na madrugada do primeiro dia. Rivaud só podia especular sobre o que lhe acontecera. Delba vigiava o acampamento enquanto os outros dormiam. Quando acordaram, tinha desaparecido. Acabaram por encontrar o corpo a uma distância curta. A mão fechara-se sobre o que parecia ser uma flor esplendorosa. Mas uma análise revelou que as pétalas eram venenosas. Porque razão o comandante tocara, sem luvas, na flor?
O que nenhum dos membros do grupo compreendeu foi o motivo porque Delba saíra sozinho do acampamento, contra todas as regras. Teria sido atraído por algum ruído ou fora excesso de confiança do comandante? Vira alguma coisa ou alguém? Morto sem angústia, de face serena, Delba já não podia responder a essas inquietações.
Os três sobreviventes abandonaram o primeiro acampamento, depois de terem enterrado o corpo do comandante. À luz muito diáfana da manhã, a selva de Golem parecia incendiada, repleta de tons baços e formas horrendas, como se fosse carne viva pendurada num talho de criaturas gigantes.
"Um milhão de plantas desconhecidas para podermos baptizar com nomes novos", brincara Bergerac. Foram estas as únicas palavras que gastaram. Lembrando-se do companheiro, avançaram calados, pisando a cobertura esponjosa, (lianas, troncos e pântanos), rumo à construção alienígena.
Nesse segundo dia, perceberam que tinham perdido os aparelhos de comunicação e de orientação. Os primeiros deixaram logo de funcionar, consumidos por um musgo, ou algo vivo e quase microscópico que entrara no interior dos mecanismos e os incinerara; os aparelhos de orientação eram menos relevantes, pois não teriam de caminhar um espaço demasiado longo para chegarem ao objectivo, que devia estar logo ali, quatro troncos mais à frente, escondido pela cerrada vegetação rente ao solo.
Mas, nos dois dias seguintes, procuraram em vão a construção misteriosa, sempre sem avançarem mais do que um quilómetro em qualquer direcção. Andavam em frente, depois inflectiam para a direita e, de novo, para a direita, apenas 90 graus em cada viragem; após três voltas andavam de novo para trás, sempre num padrão semelhante, como se varressem uma quadrícula. Então, começaram a perceber que nunca encontravam os rastos deixados pela anterior passagem. Onde tinham cortado raízes e fendido vegetação com os grandes machetes, havia agora apenas a paisagem imaculada, monótona, como se novo tecido tivesse engolido os seus rastos.
O cansaço começara a tomar conta dos três exploradores. Sonhavam com a pirâmide, imaginavam que ali, naquela selva, estaria enterrada uma maravilhosa cidade de cúpulas douradas, mais bela do que qualquer outra construção no universo, e nesse refúgio poderiam descansar das suas fadigas.
Foram sendo tomados de alucinações. Bergerac enlouqueceu ao sexto dia. Começou a rir-se muito alto, histérico. Numa ocasião, sem aviso, embrenhou-se no mato espesso. Não o viram mais. Apenas o riso insensato, que parecia provir de várias direcções ao mesmo tempo. E, quando chegou a noite, trazendo o fumo rasteiro da decomposição dos tecidos, o cheiro ácido da putrefacção, Leduc e Rivaud ouviram de súbito um grito pavoroso, que irrompeu daquela paisagem de camadas decompostas, onde apenas a morte triunfava.
Já não procuravam nada, quando foram surpreendidos pelos insectos do tamanho de um punho. Limitavam-se a percorrer uma espécie de labirinto mental, sem rumo ou sentido, apenas marchando, já sem forças, um passo a seguir ao outro, como náufragos numa rotina.

 

IV
Rivaud pensou em ficar no local onde Leduc tombara. Permaneceria naquele exacto lugar até que chegasse a expedição de salvamento. Mas os murmúrios da selva de sangue prosseguiram na mesma entoação de um cântico fúnebre. E o corpo do amigo tornara-se desagradável, coberto por uma espuma, ou seria uma película de um líquido fétido, cuja podridão o contaminava também a ele, com o seu cheiro enjoativo, colado aos dedos, entranhando-se pela pele dentro.
E, quando o desespero já assentara no espírito cansado, emergiam na sua memória as imagens indefinidas daquilo que poderia ser uma construção em forma de cara humanóide, olhando o espaço, ou uma torre, ou uma pirâmide espelhada, a reflectir a vaga luminosidade pálida daquele planeta excessivo.
Acordado pela beleza das imagens, Rivaud ganhou energia para continuar a marcha. Deixou o corpo do arqueólogo escondido por folhas mortas e prosseguiu. Andou durante um tempo que lhe pareceu prolongar-se por muitas horas, cada passo um novo tormento, cada fibra do corpo a protestar com dores, pela desidratação, a febre, o cansaço.
Quando chegou a noite, escalou a um ramo de uma árvore e amarrou-se com a corda que lhe restava. Apesar do desconforto, conseguiu dormir. Sonhou com pirâmides e torres imaginárias, caras alienígenas e também, confusamente, com os nomes de fantasia que tinha escolhido para todas aquelas novas espécies de plantas, que ninguém conheceria jamais. E, quando despertou, ao raiar de uma luz que pairava como se fosse poeira, lembrava-se apenas de farrapos do sonho.
Depois, seguiu o caminho. De novo, as botas afundando-se na matéria esponjosa do solo, o cansaço a anunciar cada movimento, um vapor que parecia sair do seu corpo, a água restante, que se perdia para a humidade geral, como se as suas células fossem os únicos tecidos a secarem naquela armadilha.
E, de súbito, viu um movimento, alguns metros à frente. O que lhe pareceu um homem a andar entre a folhagem. E ouviu distintamente o ruído de machetes que cortavam a selva. O seu coração bateu mais forte, assaltado pela esperança de ser encontrado pela missão de salvamento. Mas logo essa alegria entrou em colapso, ao distinguir, naquela distância, duas figuras de homens, as cores do uniforme iguais às suas: eram ele e Leduc!
Sim, ele, Rivaud, a abrir caminho entre ramos soltos; e, atrás, Leduc, com uma expressão de angústia, o olhar desvairado e perdido. Antes de estar morto!. Uma cascata de emoções tomou conta das suas percepções, mas a visão fora breve, já os dois náufragos desapareciam numa neblina, sem lhe dar tempo para gritar.
Rivaud ainda andou à deriva durante muito tempo, uma eternidade. A floresta de sangue estava repleta de ecos. E, de súbito, foi inundado por uma onda irresistível de cansaço. Encostou-se a um tronco e ficou ali, à espera. Estava a morrer e sabia disso. Então, na derradeira hora, quando lhe restava a desistência, teve um relance das construções misteriosas. Estavam talvez à sua frente, a dez metros. Viu a superfície lisa de uma parede que brilhava, mas a imagem não era estável, parecia animada por uma ondulação de neblina que lhe mudava subtilmente os contornos. Era perfeita, pensou Rivaud, maravilhado com a descoberta. Igual ao sonho que sempre procurara, a quimera inexistente, a inatingível perfeição humana, o tesouro inalcançável, o cerne da alma. Uma miragem.
E, finalmente feliz, em paz consigo mesmo, Rivaud deixou-se flutuar na direcção da morte.

 

(Um conto antigo, sem alterações)

 



publicado por Luís Naves às 20:17
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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
Parabéns a nós

Eis-me acordado dentro de ti.

Num soneto de Rilke,
«entre os ínfimos rumores no capim
e o sabor da hortelã».
Ao longe, sobre a falésia e as mais altas ondas
volteiam as aves, luminosas como purpurinas.

Por que afloraram esses dedos os meus lábios,
na terna certeza que só partilham os amantes?
Assim regressámos, sem receio ou cuidado,
e nem tempo tive para guardar o corpo
em qualquer recanto onde pudesse menti-lo.

Agora regresso ao sono, a outras memórias acres,
preciosas, como trufas selvagens sob o chão.

 

Publicado em Janeiro de 2007 no blogue Prazeres Minúsculos e também neste livrinho aqui.



publicado por João Villalobos às 15:02
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Passeio com Átila

 

Da obscura bruma, cinzenta e fria, saiu aquele par de silhuetas. O rapaz era alto e magro, vinha agasalhado com um cachecol velho que destoava do sobretudo. Pela trela, trazia o cão rafeiro, com costela de pastor-alemão. Desceram devagar a rampa e o homem escolheu um banco de jardim, onde se sentou, apesar da forte humidade. Depois, largou o cão da trela e disse, em voz alta, como se conversasse com ele:
“Podes ir, Átila, mas não te afastes”, e admoestava o rafeiro, com o dedo espetado.
A princípio, o animal largou por ali fora, deu três pulos no relvado, cheirou algumas árvores, depois voltou para junto do rapaz, que meditava, a observar o espaço confinado no nevoeiro, as copas de arvoredo no fim do descampado do jardim, as folhas amareladas das árvores mais próximas, a luz que tentava romper a barreira das nuvens.
O cão ficara em frente ao rapaz, sentado sobre as patas traseiras, à espera, a observar o que faria o humano:
“Queres saber como é papar a velhota...”, disse o homem, para puxar conversa.
O cão moveu a cabeça para o lado; talvez para escutar melhor, talvez para tentar compreender a ordem dos sons que o humano fizera.
 “Pois, meu amigo, isso tem os seus problemas”.
O focinho do cão avançara ligeiramente, como que numa interrogação.
“Papar a velhota, digo...”, esclareceu o rapaz.
O cão abriu a boca, descontraíra, tinha a língua de fora...
“Tu deves achar esquisito. Apareci em tua casa, assim, sem aviso, tu percebeste logo ao que eu vinha... Mas não podes compreender porque fiquei com a tua dona...”
O cão ficara ainda mais atento, o olhar interrogador, insatisfeito...
“Ela controla tudo, sabes”, continuou o jovem. “Divorciada, sem filhos, muito dinheiro. E já chegou à idade em que as mulheres se estão nas tintas para as aparências, podem namorar com um tipo como eu, que sou solteiro desempregado, ainda por cima ambicioso. Olha para este magnífico sobretudo”, e mostrou a qualidade do tecido ao canino, que cheirou o casaco. “Boa matéria, foi ela que me comprou, belo presente...”
O homem recostou-se melhor no banco do jardim:
“Achas mal que receba presentes? Tu também dependes dela...”
O cão de novo tinha a língua de fora, como se concordasse...
“Gostei de a conhecer” disse o rapaz, recostando-se melhor no banco de jardim, perna traçada, gestos no ar. “Um dia, claro, vou-me embora... Ela vai chorar umas semanas e depois procura outro matulão como eu. Ou talvez nem chore. Aponta o dedo e diz que a porta é serventia da casa. Temos vinte anos de diferença e ambos sabemos que isto não é para casar. O ideal seria ela arranjar-me um emprego. Até esse dia, dá-me presentes”. Deixou o olhar no cão, mudou o semblante: “Não achas bem?"
Agora, fizera uma pergunta. O tom de voz mudara, tornara-se áspero. O cão apercebeu-se da transformação e olhou para o rapaz, à procura de pistas para compreender o motivo da transição. Depois, o canino distraiu-se, olhou para o lado e rosnou, na direcção do vazio. Houve uma pausa. Em vez do silêncio, surgia um rumor de passos. Do nevoeiro surgiram dois vultos; eram dois homens jovens, que também desciam o caminho asfaltado, no meio do parque público. Vinham a conversar. Aproximaram-se. Pararam junto ao rapaz do sobretudo. Dois skinheads.
Tinham aspecto ameaçador e rufião. Casacos de cabedal, correntes metálicas e tatuagens. Pararam em frente ao banco de jardim.
“É feroz, o rafeiro?”, perguntou o skin mais alto, apontando para o cão.
“Chama-se Átila, portanto, deve ser mau como as cobras”, respondeu o rapaz.
O segundo skin acocorara-se ao lado do animal. Começou a fazer-lhe festas no pescoço e na nuca.
“Parece manso”, disse.
Ficaram os quatro ali calados. Então, o segundo skin foi correr com Átila no relvado; disse que ia testar a velocidade do animal. O outro, o mais alto, que parecia ser o chefe, sentou-se ao lado do rapaz do sobretudo:
“Tu não trabalhavas naquela fábrica que fechou?”, perguntou o skin.
O rapaz fez um gesto, a dizer que sim.
“Eu também. Não te lembras de mim? Trabalhava na secção de polimento. Mas, na altura, usava cabelo comprido...”
“Ah, sim! Lembro-me... Pena a fábrica ter fechado... E, depois, arranjaste emprego?”
“Não! Quem é que hoje arranja emprego? Ando pra qui...Tu, é que tás a subir na vida, casaquinho à maneira...”
“Nem por isso...Tenho uma velhota por conta... É dona de uma escola privada e tem carro e narta”.
“Dá-te umas lições, a velha?”
“Nem por isso...”
“O cão é teu?”
“É dela. Eu só o vim passear.”
“É giro, o cão, e tem um nome porreiro!”
“A minha gaja disse uma vez que era o nome de um guerreiro que andou a espatifar o mundo e a quem chamavam o flagelo de Deus”.
“É sabichona, a tua gaja?”
“Pois, se tem uma escola...”
Átila e o outro skin tinham regressado. O cão arfava de contentamento, afeiçoara-se ao desconhecido e cheirava-lhe as calças e as botas.
“Parece que vai começar a falar, o sacana”, disse o skin, a apontar para o rafeiro.
Depois de dizer aquilo, o chefe levantou-se, espreguiçou-se:
“Tou cá a pensar nesse tal guerreiro”, disse ele, numa risada. “Se calhar o tipo tinha dignidade, porque já nessa altura o mundo precisava de espatifação”.
Dito isto, os skins foram-se embora, mas só se despediram do animal, com grandes festas no pescoço, no dorso e amigáveis palmadas na nuca do rafeiro.
Regressara o silêncio. O parque mergulhara numa espécie de intervalo, com a cidade imperceptível atrás da névoa densa e os pensamentos a fluírem sem nexo.
“E aqui estamos nós os dois sem termos para onde ir”, disse o rapaz, a falar sozinho.
E o cão gemeu um pouco, sempre a observar o humano; inclinou a cabeça, como se tivesse pena dele; abriu muito os olhos, como se quisesse dar-lhe força para tomar uma decisão.
“E tu aqui a perceberes tudo o que nós dizíamos...”, murmurou o rapaz.
E, depois, num sopro breve: “Vamos pra casa, Átila, meu flagelo”.
 
 
Conto antigo, talvez pedaço de uma novela, (gosto imenso dele, não sei porquê) e que publico aqui por ocasião do primeiro aniversário deste blogue


publicado por Luís Naves às 11:22
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Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009
É difícil falar do amor

Parece fácil falar de amor

E há outros temas bem mais urgentes

planeta a sufocar, crises emergentes

o mar a subir, o excesso de calor

 

Pensar nas paixões, quis eu supor

daria versos pouco exigentes

ideias banais, algo incoerentes

poesia sem chama e sem ardor.

 

Soube então o que falhara em entender:

a água passada é como um rio imenso

que se impõe ao presente, temível, denso

 

Um desgosto corre sempre assim, penso

e recordá-lo de menos é esquecer:

ter amado não é ter vivido, é ainda viver


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publicado por Luís Naves às 12:49
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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009
O ar nocturno

Uma flor de gelo desliza

como acontece em sonhos,

flutua entre prédios soturnos

desce ravinas artificiais

sobe um instante na maré imaginária,

soprada nas sombras da sombra.

E a certo passo desiste.

Ainda no embalo tépido do vento,

antes de se deitar na terra,

dissolve-se no ar nocturno


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publicado por Luís Naves às 12:06
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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
A mágoa

Minha mágoa envelhece devagar

A morte vem mais longe do que parece

e as feridas nunca param de sangrar

nessa profunda noite que arrefece

 

Um vento triste tenta esvaziar

a dor tranquila que me endoidece

pensando na incerteza de encontrar

um grito que do medo transparece

 

Quando a solidão áspera fica espuma

se a pequenez do total se apercebe

esvaio-me exangue, em luz pura, em suma

 

Sei que sobra o que nunca se concebe

sou a sombra fugaz de coisa nenhuma

que do amargor apenas desgosto recebe


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publicado por Luís Naves às 16:07
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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Dias de bronze

Dias de bronze.

Sons que pingam e sombras vermelhas.

Todos vivemos horas que nos atravessam

de tão ausentes, na inflexível soturnidade.

 

A poeira regressa.

Memórias nas suas mãos, fragmentos de riso

e beijos de chocolate em postais vindos de perto. 

Palavras como "lembras-te" e "faz hoje anos que".

 

Avançar o tempo.

Acontecer o mistério e esse tempo parar

ou pelo menos ter o sabor de uma praia.

Dizer assim: "Agora fico aqui". E ser verdade.



publicado por João Villalobos às 22:02
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Reflexões de um banqueiro

Não é trivial a vida de um banqueiro

Mas foi para isto que subi neste edifício

Apenas dez por cento de sacrifício

Assim funciona o mundo financeiro

 

Sete mil despedidos em setenta mil

Se ao menos tivesse um sector gangrenado

A urgência seria mais verosímil

E só para isso daria meio ordenado

 

Inútil, esta é uma ideia mesquinha.

Sabendo embora que não consta uma linha,

procuro no texto algo sobre os efeitos

Um facto conhecido, não somos perfeitos.

 

Preferia uma solução cirúrgica, talvez,

Sei que um dia será a minha vez

Mas este corte terá de ser cego,

As minhas convicções nunca renego.

 

Sete mil quase parece desperdício

no entanto será apenas o início

Na redução do excesso de custos.

É simples: os bancos têm de ser robustos

 

A sua lógica é sempre ao contrário

E assinar este memorando é necessário.

Entre os trabalhadores que estão parados

Escolherão sempre os mais desgraçados.

 

Que cruel é esta crise maldita!

A sorte de cada um já está escrita

Perde quem deu mais, quem for frágil

Fica apenas quem se mostrou mais ágil

 

Mas desta maneira fica a economia

bem mais resistente e saudável.

Um passo decisivo em cada dia

Torna o nosso banco mais viável

 

Pensar tanto vai-me na alma pesando

Mas alguém tem de saber dominar o povo

Por isso, sento-me na cadeira de novo

E, sem hesitar, assino o memorando.

 

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publicado por Luís Naves às 10:51
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Anatomia da insónia

 

 

Rasteja o rumor da cidade

Pela casa adormecida.

Sinto pequenos dentes

A escavarem a noite

minando as suas muralhas

de pedra envelhecida.

 

Movo em vão o meu corpo

Na bruma doente, humedecida.

Viro-me de novo, lentamente

dentro de voláteis pensamentos

que querem deslizar no tempo

da madrugada vencida.

 

 

Já ouço os curtos passos

Na hora amanhecida.

São os outros infelizes

Que tal como eu faço

Esperam o sono docilmente

Como se esperassem a própria vida

 


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publicado por Luís Naves às 09:37
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Solitário

Nestas margens da brisa ergo-me solitário.

Escorre chumbo líquido pela terra dourada,

a quente emoção do medo emerge do nada

e a miragem brilha no horizonte refractário.

Vagueiam turbilhões de calor e de poeira

vozes de areia onde perto algo rasteja

e o visível é incerto, talvez nem ali esteja,

sopra vento imperfeito em abismos sem beira.

Desolação da alma, respira-se demasiado

Meu coração rebenta, os sentidos em revolta

e sufoco no mundo morto largado à solta

que, solitário, prefiro viver condenado.


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publicado por Luís Naves às 09:18
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
Desistir de nós

Se eu voltasse atrás, o que faria?

Podia fazer tudo o que não fiz

poderia querer tudo o que não quis

sabendo, embora, que nada mudaria.

 

O destino decidiu o que seria

Falaste como fala uma boa actriz,

guião desenhado no quadro a giz

e disseste-me adeus, e chovia.

 

Percebo bem que não foste sincera.

O que ia acontecer era o que era

e um adeus não tem de ser desistente.

 

Mas se penso em ti e quero mudar

a vida não recua, está sempre a andar

e desistir de nós estava à nossa frente

 


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publicado por Luís Naves às 12:30
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Domingo, 1 de Novembro de 2009
Perto, o labirinto

Ali ficaste, parada, perante mim

como se fosses um simples enigma egípcio.

A boa história precisa de infeliz fim

algo de irreal que não pareça fictício.

 

O nosso labirinto andara ali bem perto

e seguíamos perdidos no exterior dele

o mais longe é como se fosse o mais certo

a distância entre nós é arrepio da pele.

 

Deixa-me, pois, levemente tocar-te

será esse o final da nossa história

Assim distante poderei enfim amar-te

pois o amor confunde e acerta a memória.

 


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publicado por Luís Naves às 16:59
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O amor não é nada disso

No começo, foi mágico feitiço

Eu fiquei deslumbrado e comovido

com teu sereno sorriso distante

 

Já caía o entardecer mortiço,

e no meio do tumulto incontido

o acaso convergiu num só instante

 

Vi primeiro o teu vulto no passadiço

entre a multidão e o intenso colorido.

Foi a visão breve da perfeição inconstante

 

Mas tive medo, pensei em compromisso

sorte assim deve ser de alguém iludido

tanta alegria à solta assusta o hesitante

 

Rodeado de imenso, fui omisso

o céu em brasa parecia ter ardido

e havia silêncio no ruído dominante

 

O esplendor ficara hirto e movediço

e escondi-me num amargor sofrido

na desistência do dia sufocante

 

Agora sei que o amor não é nada disso

que no crepúsculo há o caminho ferido

de quem ama de menos para teu amante

 

 


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publicado por Luís Naves às 16:34
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Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Um pouco mais de eterno

 

Dizem, uma eternidade inteira passou,

todo o tempo do mundo demorou

mas a morte da estrela gigante

lembra a minha tristeza errante

 

somente uma luz fraca que ousou

separar-se da escuridão que restou.

Afirmam que era o sol mais distante

no seu cosmos o menos cintilante.

 

Penso como está longe o que é finito

o tempo é a mão que fecha a porta

que faz esquecer o que não foi dito

 

Treze mil milhões de anos e um dia

um pouco mais de eterno pouco importa

para quem já se cansou que não vivia

 


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publicado por Luís Naves às 21:45
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