Minha mágoa envelhece devagar
A morte vem mais longe do que parece
e as feridas nunca param de sangrar
nessa profunda noite que arrefece
Um vento triste tenta esvaziar
a dor tranquila que me endoidece
pensando na incerteza de encontrar
um grito que do medo transparece
Quando a solidão áspera fica espuma
se a pequenez do total se apercebe
esvaio-me exangue, em luz pura, em suma
Sei que sobra o que nunca se concebe
sou a sombra fugaz de coisa nenhuma
que do amargor apenas desgosto recebe
Dias de bronze.
Sons que pingam e sombras vermelhas.
Todos vivemos horas que nos atravessam
de tão ausentes, na inflexível soturnidade.
A poeira regressa.
Memórias nas suas mãos, fragmentos de riso
e beijos de chocolate em postais vindos de perto.
Palavras como "lembras-te" e "faz hoje anos que".
Avançar o tempo.
Acontecer o mistério e esse tempo parar
ou pelo menos ter o sabor de uma praia.
Dizer assim: "Agora fico aqui". E ser verdade.
Não é trivial a vida de um banqueiro
Mas foi para isto que subi neste edifício
Apenas dez por cento de sacrifício
Assim funciona o mundo financeiro
Sete mil despedidos em setenta mil
Se ao menos tivesse um sector gangrenado
A urgência seria mais verosímil
E só para isso daria meio ordenado
Inútil, esta é uma ideia mesquinha.
Sabendo embora que não consta uma linha,
procuro no texto algo sobre os efeitos
Um facto conhecido, não somos perfeitos.
Preferia uma solução cirúrgica, talvez,
Sei que um dia será a minha vez
Mas este corte terá de ser cego,
As minhas convicções nunca renego.
Sete mil quase parece desperdício
no entanto será apenas o início
Na redução do excesso de custos.
É simples: os bancos têm de ser robustos
A sua lógica é sempre ao contrário
E assinar este memorando é necessário.
Entre os trabalhadores que estão parados
Escolherão sempre os mais desgraçados.
Que cruel é esta crise maldita!
A sorte de cada um já está escrita
Perde quem deu mais, quem for frágil
Fica apenas quem se mostrou mais ágil
Mas desta maneira fica a economia
bem mais resistente e saudável.
Um passo decisivo em cada dia
Torna o nosso banco mais viável
Pensar tanto vai-me na alma pesando
Mas alguém tem de saber dominar o povo
Por isso, sento-me na cadeira de novo
E, sem hesitar, assino o memorando.
Rasteja o rumor da cidade
Pela casa adormecida.
Sinto pequenos dentes
A escavarem a noite
minando as suas muralhas
de pedra envelhecida.
Movo em vão o meu corpo
Na bruma doente, humedecida.
Viro-me de novo, lentamente
dentro de voláteis pensamentos
que querem deslizar no tempo
da madrugada vencida.
Já ouço os curtos passos
Na hora amanhecida.
São os outros infelizes
Que tal como eu faço
Esperam o sono docilmente
Como se esperassem a própria vida
Nestas margens da brisa ergo-me solitário.
Escorre chumbo líquido pela terra dourada,
a quente emoção do medo emerge do nada
e a miragem brilha no horizonte refractário.
Vagueiam turbilhões de calor e de poeira
vozes de areia onde perto algo rasteja
e o visível é incerto, talvez nem ali esteja,
sopra vento imperfeito em abismos sem beira.
Desolação da alma, respira-se demasiado
Meu coração rebenta, os sentidos em revolta
e sufoco no mundo morto largado à solta
que, solitário, prefiro viver condenado.
Se eu voltasse atrás, o que faria?
Podia fazer tudo o que não fiz
poderia querer tudo o que não quis
sabendo, embora, que nada mudaria.
O destino decidiu o que seria
Falaste como fala uma boa actriz,
guião desenhado no quadro a giz
e disseste-me adeus, e chovia.
Percebo bem que não foste sincera.
O que ia acontecer era o que era
e um adeus não tem de ser desistente.
Mas se penso em ti e quero mudar
a vida não recua, está sempre a andar
e desistir de nós estava à nossa frente
Ali ficaste, parada, perante mim
como se fosses um simples enigma egípcio.
A boa história precisa de infeliz fim
algo de irreal que não pareça fictício.
O nosso labirinto andara ali bem perto
e seguíamos perdidos no exterior dele
o mais longe é como se fosse o mais certo
a distância entre nós é arrepio da pele.
Deixa-me, pois, levemente tocar-te
será esse o final da nossa história
Assim distante poderei enfim amar-te
pois o amor confunde e acerta a memória.
No começo, foi mágico feitiço
Eu fiquei deslumbrado e comovido
com teu sereno sorriso distante
Já caía o entardecer mortiço,
e no meio do tumulto incontido
o acaso convergiu num só instante
Vi primeiro o teu vulto no passadiço
entre a multidão e o intenso colorido.
Foi a visão breve da perfeição inconstante
Mas tive medo, pensei em compromisso
sorte assim deve ser de alguém iludido
tanta alegria à solta assusta o hesitante
Rodeado de imenso, fui omisso
o céu em brasa parecia ter ardido
e havia silêncio no ruído dominante
O esplendor ficara hirto e movediço
e escondi-me num amargor sofrido
na desistência do dia sufocante
Agora sei que o amor não é nada disso
que no crepúsculo há o caminho ferido
de quem ama de menos para teu amante
Dizem, uma eternidade inteira passou,
todo o tempo do mundo demorou
mas a morte da estrela gigante
lembra a minha tristeza errante
somente uma luz fraca que ousou
separar-se da escuridão que restou.
Afirmam que era o sol mais distante
no seu cosmos o menos cintilante.
Penso como está longe o que é finito
o tempo é a mão que fecha a porta
que faz esquecer o que não foi dito
Treze mil milhões de anos e um dia
um pouco mais de eterno pouco importa
para quem já se cansou que não vivia
O ponteiro das horas avança e destina
Sinto por dentro o sopro do deserto
a tua pele que a palidez ilumina
O teu olhar de esfinge, muito perto
Viver assim, ao contrário, desatina
tremo de acordar, de ficar desperto
minha alma tomba de uma colina,
o momento que nos resta é incerto
O tempo ouve-se cada vez mais forte
vejo-te, tesouro parado, desnorte
algo que ao acabar não mais acaba
Devo dizer-te adeus num só momento,
do deserto vem um sopro de vento:
adeus, amor, o nosso mundo desaba
Sou considerado um duro na minha profissão, um detective privado à moda antiga. Para alguém como eu, habituado ao submundo da violência, o caso da loura espampanante não passava de simples briga caseira. Mas não me interpretem mal, quando um detective com as minhas qualificações se mete ao serviço, pois bem, mete-se ao serviço.
O encontro com o marido enganado decorreu no country club, uma selva empresarial onde se fazem e desfazem negócios de milhões. Um tipo tem de andar ali com máxima cautela, desconfiar de cada transeunte e cada esquina, de tal forma são impiedosos os predadores, que reagem ao mínimo cheiro de dólares, tal como as piranhas são atraídas a grandes distâncias por minúsculas gotas de sangue.
Entrei no country club sem mostrar qualquer receio, aproximei-me de um tipo com ar de marido enganado, baixo, gordinho e careca. Tinha um aperto de mão que revelava um profissional de vendas, mas quando lhe perguntei o nome, percebi que não era Joe Babbitt, o homem que eu procurava.
A nossa conversa atraiu outra pessoa, um indivíduo alto e magro, com aspecto de rancheiro sul-americano.
“Eu sou Joe Babbitt”, afirmou o recém-chegado, que vestia um sóbrio casaco de flanela, com lenço piroso no bolso, à altura do coração. Sentámo-nos num local discreto, de onde se podia ver a piscina, para onde a brisa leve arrastara algumas folhas melancólicas, que agora flutuavam como barcos de papel num lago tranquilo.
Joe Babbitt era um homem de negócios com reputação na cidade, habituado a conversas francas. No entanto, falou-me do problema dele com rodeios, como se estivesse a descrever uma tribo de índios a cercar Forte Apache, em pleno carrossel de indirectas.
“Portanto, Joe, está a tentar explicar-me que a sua mulher tem um amante”, interrompi, com suavidade.
Ele corou, a ponto da restante pele parecer a parte branca da bandeira americana.
Lá conseguiu balbuciar que me pagava mil dólares para arranjar fotos comprometedoras da sua mulher com o amante, um actorzeco da arraia miúda, que a louraça conhecera em Hollywood, quando fora estrela de celulóide, flausina de filmes B. E Babbitt mostrou-me a fotografia dela, bem melhor do que eu tinha imaginado. Um facto era indiscutível: a tipa tinha demasiadas octanas para o meu cliente. Vocês, leitores experientes, conhecem o enredo: o marido é piranha graúda, mas a sereia anda na atmosfera a seduzir marujos de passagem.
Eu podia escrever argumentos de filmes negros, de tal maneira adivinho as histórias logo desde o início, mas as conversas iniciais com o maridinho não me tinham preparado para uma lasca daquelas. A madama era um mulheraço de fazer parar o trânsito. Podia, sem escândalo, ser declarada monumento nacional. E espantei-me: as coisas que Hollywood anda a mandar para o lixo. Certamente, excesso de bebedeiras nos departamentos de casting dos grandes estúdios.
O tal Babbitt não quis adiantar muito mais das suas aflições. Pediu-me que agisse com a máxima cautela.
Mas não se engana cá o je. Montei o estaminé em frente à mansão, à espera da primeira jogada. Não tive de esperar muito. Nesse dia, manhã cedo, ela saiu de casa com peruca e óculos escuros. Um disfarce quase infantil. Seguiu para a cidade num cadilac descapotável, cor creme, sempre a velocidade média, como se soubesse que eu estava ali, a segui-la com toda a descrição. Quando chegou à baixa, entrou num parque de estacionamento e escolheu um lugar na primeira cave. Segui-a. Fiquei ali perto, a observar sem pressa como ela saía do estacionamento. A boazuda saiu e eu esperei um tempo lá embaixo, para não ser detectado.
E foi ali que se deu a primeira situação extraordinária deste caso.
Estava a caminhar, no meu jeito furtivo, ainda no estacionamento, quando a cinquenta metros de mim apareceu um homem de chapéu, que felizmente não me viu, e que na mão tinha uma espantosa metralhadora modelo thompson, igualzinha à que usava machine gun Kelly. E logo a seguir veio outro homem. Apesar dos fatos de flanela impecáveis, onde nem faltava uma rosa no bolso da lapela, os tipos colocaram-se em frente a um carrão estrangeiro, cheio de cromados, e subitamente regaram-no com tiros, como se estivessem a usar uma mangueira para o lavar. A lata do espada saltava e fumegava e eu só pensava que era bem melhor que não estivesse ninguém lá dentro. Colei-me às sombras e esperei que aquilo acabasse.
Os intrusos terminaram o trabalho e afastaram-se.
“Foi pena o Bugatti, tão bonito”, disse um deles. Depois, ao longe, ainda ouvi a chiadeira de um carro que largava, esbaforido, pela cave do estacionamento, e quando fiquei certo de que tudo acabara, saí do meu refúgio e aproximei-me do carrão, que jazia, semi-destruído, falecido no asfalto.
Lá dentro, entre manchas de sangue, estava um homem morto, crivado de balas, feito em picadinho e pouco bonito. Ar de estrangeiro, spaghetti. Sem dúvida, o tal Bugatti.
Não havia muito para ver e achei que era mais importante seguir com a minha missão, apesar de nessa altura ainda não avaliar bem se o tiroteio na garagem teria alguma coisa a ver com o caso da antiga actriz de Hollywood e do seu amante que se convertera à televisão.
Corri para a superfície e lá estava ela, a loura espampanante, entre a multidão. Saíra da garagem mesmo a tempo de nem sequer ouvir o barulho das thompson. O perfil dela era inconfundível, mesmo vista de costas e a uma distância de 200 metros: a forma de gazela como atravessava a rua, ao mover aquelas ancas de fazer enlouquecer um nefelibata. Tornava-se muito fácil vigiá-la. Tinha o melhor par de pernas que já vi e foi nessa altura, quando a estava a seguir discretamente na avenida 56, no meio do trânsito matinal, que percebi o interesse de Joe Babbitt, o marido enganado.
A gaja agiu bem, tentou despistar eventuais seguidores e, se tivesse sido perseguida por um amador, a pista tinha-se perdido. Deu-me as voltas num hotel da baixa, ao entrar por uma porta e sair pela outra, mas eu tinha previsto a manobra e continuei a farejar a presa. Mudara de farpela, para um vestido cor de creme, que lhe ficava a matar. Depois, entrou numa estação de metro, apanhou a primeira composição e saiu na estação à frente, mas só no último momento, para detectar eventuais seguidores. Claro que eu tinha antecipado o truque e continuei a segui-la, já quase apaixonado por aquele movimento de ancas, uma verdadeira máquina de hipnotizar coelhos.
Por instantes, até me imaginei enrolado com a dama, quando ela entrou numa casa de banho pública e eu fiquei fora à espera. Foi ali que ela mudou de disfarce, uma boa manobra para despistar principiantes, mas não me deixei enganar. A louraça era uma excelente actriz e este truque clássico tinha sido utilizado num dos seus filmes. Saiu na forma de velhinha insignificante, com saquinho das compras e tudo. Comecei a admirar o petisco.
No fundo, bem lá no fundo, sou um duro de coração mole. Continuei a segui-la, mas agora com extrema admiração e atenção redobrada. Quase tive pena de ser obrigado, por contrato, a sacar as famosas fotos comprometedoras. Subimos pela avenida 75, a loura espampanante a fazer de velhinha indefesa, e eu 50 metros atrás, a apreciar aqueles sinais inconfundíveis das ancas num movimento sensual e as curvílineas que se adivinhavam atrás da vestiota da velha, uma espécie de saco de serrapilheira que visava esconder toda a sensualidade do mundo.
A loura espampanante disfarçada de velha com sex-appeal de camionista subiu toda a rua 75 e depois meteu pela rua 43, que como sabem é meio enviesada. Numa precaução que quase me traiu (foi brilhante, devo dizer) parou num bar da esquina e enfiou um copo de bourbon, olhando manhosamente para ver se tinha sido seguida. Só depois se dirigiu para o hotel onde estava o amante, o antigo actor de Hollywood que fizera três filmes bastante maus sobre detectives privados, antes de cair em desgraça e ser obrigado a tornar-se a vedeta de uma série de televisão sobre um detective privado, uma espécie de Kojak, que levava porrada todas as semanas (uma das minhas séries favoritas, diga-se de passagem).
Não vou entrar em pormenores, mas descobri que a lasca loura disfarçada de serrapilheira subira para o quarto 545 do hotel metropole. O nome do hotel e o número do quarto são irrelevantes. O que importa é perceber que havia uma escada exterior e que se podia, com alguma habilidade, colocar uma câmara que me permitia fotografar o interior do quarto.
Foi o que fiz nos minutos seguintes. Empoleirado no quinto andar, como se estivesse a lavar as janelas, lá consegui colocar a máquina fotográfica num ângulo que registava toda a acção.
Já vinha a descer, quando me cai um tipo em cima. Houve uma luta terrível e quase caí cinco andares. Então, reconheci as fardas das brigadas de intervenção do FBI. Foi a surpresa que me fez baixar a guarda e levei um uppercut nos queixos que me deixou meio abananado. Só acordei em frente ao meu amigo Denzel Washington, que é um dos comandantes do FBI na luta de contra-espionagem.
"O que estás aqui a fazer?", perguntou o Denzel.
Não havia razão para lhe ocultar a verdade:
"Estou a seguir uma loura que se encontrou com o amante, um antigo actor de Hollywood, no quarto 545".
"No quarto 545 houve um encontro entre dois espiões soviéticos", disse o Denzel.
"Devem ter sido os ocupantes anteriores. Estes, eram dois amantes. Uma loura e um actor falhado", expliquei.
"A tua loura é uma velhinha de 70 anos que roubou o segredo da bomba atómica", afirmou o Denzel, que me queria acusar de cumplicidade atómica.
"Não te deixes enganar pelo disfarce”, disse-lhe. “Ela, a loura, é uma excelente actriz. Não sei porque razão Hollywood não a aproveitou. É muito mais boa do que a Olivia de Havilland".
"E eu sou mais bonzinho que o Errol Flynn..."
"Pois, tu és o Denzel Washington".
Impaciente, o meu colega do FBI abriu uma porta do quarto e lá estava, sentada na cama, com os óculos pendurados no nariz (parecia uma professora primária) a velhinha com a sexualidade de camionista e um saco de compras na mão. Era a mesma mulher que eu seguira, depois da mudança de disfarce na casa de banho pública. A seu lado estavam dois enormes gorilas do FBI (e isto não é uma metáfora).
Tentei tirar a peruca à velhinha, mas ela deu um berro:
“É uma vergonha, seus fascistas, estou a ser torturada”, gritou a criatura.
O cabelo branco era verdadeiro.
"O ‘amante actor’ não passa de um coronel do KGB chamado Petrov", explicou-me o Denzel.
Petrov tinha uma grande barriga.
“Não sou do KGB. Sou um halterofilista búlgaro e estou totalmente inocente”, afirmou Petrov. Mas ninguém lhe ligou pevide.
"E onde está a loura?", perguntei.
"Qual loura?"
Nesse momento, percebi tudo. Quando esclareci o equívoco com o Denzel, ainda corri até à casa de banho pública. Fiquei em frente à porta talvez duas horas, à espera que a loura espampanante saísse, mas ela não saiu. Onde estaria? E aproveitei aquele tempo para começar a redigir mentalmente o meu relatório para o marido alegadamente enganado. Diria assim: "A sua esposa tem um comportamento exemplar, viu montras e fez compras, passeou pela baixa. Tenho esta boa notícia: as suas suspeitas de infidelidade não se confirmam".
E, apesar de tudo, uma centelha de dúvida ainda bailava na minha mente. Qual seria a relação daquilo tudo com Bugatti, o spaghetti que fora morto na garagem? As pistas pareciam acabar ali. O caso tinha pontas soltas, pensei, e uma evidente nuvem de culpabilidade pairava sobre aquela paisagem repleta de mentiras e de meias verdades. Uma história mal contada, sem dúvida. Mas no relatório para o feliz magnata do country club não cabiam estas especulações mais ou menos filosóficas.
(Esta é uma versão de um conto mais curto publicado nos Prazeres Minúsculos, em 2006)
No denso nevoeiro, ele deixara de ver os objectos na sua proximidade e o mundo em redor ganhara brilho etéreo e consistência disforme.
Largado ao acaso pelo caminho, tentou não abandonar a precária vereda de lama, até distinguir com alívio o vulto indefinido da paragem do autocarro a emergir naquela sopa cinzenta.
A paragem estava num ermo desabitado e tinha uma pequena construção (aberta em dois lados, com o banco corrido ao meio); ficava fora do bairro de Santa Luzia, cujos prédios altos pareciam ter mergulhado num oceano imóvel, sufocados na profunda distância.
Toda a gente conhecia os horários dos autocarros. Para chegar à estrada, os habitantes tinham de atravessar o campo, caminhar algum tempo por terrenos onde apenas cresciam umas ervas ralas.
Quando atingiu a estrada, reparou que na paragem estavam três pessoas: um velho, uma rapariga e o seu vizinho do mesmo prédio, que trabalhava na fábrica ao fundo, a meia hora de viagem.
“Ah! És tu?”, atirou-lhe o vizinho, apesar de tudo sem aparente interesse no que dizia: “Parecias um fantasma”.
Era um homem dos seus 50, corpulento e grave, que nunca metia conversa. Dessa vez, encolheu os ombros e continuou a falar, talvez para afugentar alguma má sensação:
“Vimos uma forma que se aproximava de nós e nem parecia de uma pessoa”.
“Era só eu, não havia mais ninguém”.
“Este nevoeiro assusta”, disse a rapariga. “Até parece que abafa tudo à nossa volta”. Olhou para o recém-chegado, que deitou uma gargalhada curta:
“Está tudo bem, não se preocupem”, disse ele.
Depois, ficaram os quatro em silêncio. A rapariga era estudante, devia ir para o liceu; o velho tiritava de frio, sentara-se no banco corrido, como se tivesse falta de ar.
“Quando chega o autocarro?”, perguntou o recém-chegado.
“Meia hora de espera!”, explicou o operário. “Isto está cada vez pior”.
Queria dizer o serviço, mas era homem de poucas falas.
Não apareceram mais passageiros. O nevoeiro adensara, sólido muro a separá-los do bairro, cujo rumor se dissolvera no nada. A humidade dificultava a respiração e o frio produzia uma dor de fundo, como se tivessem sofrido um espancamento minucioso. O tempo por vezes acelerava, depois sofria síncopes fragmentadas e parecia prolongar-se além da atmosfera liquefeita.
“Não podemos ficar eternamente aqui isolados”, disse o recém-chegado. “Talvez haja alguma greve ou provavelmente pararam o serviço por causa do nevoeiro”.
A rapariga concordou, com um gesto que dizia tudo sobre a sua angústia.
“Temos de ser pacientes. O autocarro deve estar mesmo a chegar”, resmungou o velho.
Tentaram ouvir algum barulho de motor que se aproximasse, mas além do nevoeiro havia apenas o indefinível e a estrada vazia.
“Silêncio de morte”, disse o recém-chegado, repetindo a expressão que lera num livro.
“Como se isto tudo fosse tirado de um sonho mau”, interrompeu o operário, que não era dado a metáforas.
“Uma hora à espera do autocarro não é normal. Vou regressar a casa”, disse de repente o recém-chegado, após uma pausa longa.
“És capaz de ter razão, já não há autocarro, mas eu preciso de ir trabalhar”, afirmou o operário.
“E como saímos daqui, se não se vê nada?” perguntou a rapariga, um pouco aflita.
“Vamos pelo mesmo caminho, a olhar onde pomos os pés. Não deve haver azar”, decidiu o recém-chegado, que avançou para o exterior da paragem. E a rapariga seguiu-o de perto. “Não me deixe para trás”, implorou.
Passou mais tempo. As sombras dos dois jovens tinham desaparecido na bruma espessa. O operário cansou-se:
“Vou seguir pela estrada”, anunciou, dirigindo-se ao velho: “Venha daí também”.
“Prefiro ficar, o autocarro não tarda”, respondeu o velho.
O operário encolheu os ombros e lançou-se à caminhada.
Pouco depois, meio espantados, o operário, o recém-chegado e a rapariga saíram do nevoeiro. Encontraram-se, confusos, na margem da neblina e num prado imenso de onde se avistavam os prédios da orla do bairro, muito iluminados e com o seu ruído próprio de corpo vivo.
Sem transição, o nevoeiro desaparecera. O operário começara a descer a estrada e os dois jovens tinham seguido pela vereda no descampado, mas agora estavam juntos, como se tivessem escolhido o mesmo caminho.
“O nevoeiro era só naquela parte da colina. Afinal, deve haver autocarros”, disse o operário.
“Não estou a ouvir nada...”, atalhou o recém-chegado.
“É melhor regressarmos, ainda perdemos o próximo”, insistiu o operário.
Regressaram os três ao ponto de partida, até correram. O sol regressava e viram as pegadas que tinham deixado na vereda de lama, até que já não havia pegadas, apenas o mesmo caminho desolado. E quando chegaram à paragem de autocarros, o local estava silencioso e vazio.
Restava uma ligeira névoa dissipada e o idoso desaparecera.
Ainda se perguntaram quem seria o velho e para onde tinha ido, mas nenhum deles sabia.
Não o voltaram a ver. Perguntaram a outras pessoas, mas não havia palavras que o descrevessem com precisão. Talvez nem estivesse na paragem, afinal, e todos esqueceram aquele episódio, a forma estranha como o nevoeiro levantara, aquele velho que ficara para trás e, que momentos depois, já não estava ali.
O caso foi sendo esquecido com o tempo, mas o mais estranho é que, por vezes, na paragem de autocarro no campo ermo à beira do bairro de Santa Luzia (apenas em tardes de vento sóbrio) parece aos viajantes mais sensíveis que alguém diz “não tarda, não tarda”, como se fosse um sussurro que primeiro está ali e depois já não está.
Mas, enfim, tudo pode não passar de uma simples lenda ou de bizarra ilusão sonora que o vento produz sem razão.
(Adaptação de um conto publicado em Dezembro de 2006 no blog Prazeres Minúsculos)
O robot M36-42B aprendeu a pintar apenas três meses depois de ter saído da fábrica. Os engenheiros não deram muita importância a esse desvio da função primordial da máquina, que era a de despachar impressos de modelo A nas Finanças. “Ele começou a imitar os humanos”, concluiu um dos engenheiros, “deve ter visto alguém a pintar, talvez num programa de televisão”. Assim, foi permitido a M36-42B ocupar algum do seu tempo livre com telas e pincéis e tintas, já que não podia ocupar-se de sonhos. Comprava o material com o próprio salário (os robots recebiam pequenos estipêndios, para comprarem roupa, por exemplo, o que também fazia circular a economia).
Naquela época, estas máquinas (pelo menos as deste modelo) eram construídas para não durarem muito tempo, três ou quatro anos, no máximo. Os robots eram parecidos com pessoas, mas desengonçados, de ventres largos e pernas curtas. Muito feínhos, ocupavam-se de tarefas menos inteligentes.
Durante um ano, M36-42B pintou paisagens e naturezas mortas, mas em certo dia começou a alterar o seu trabalho e a pintar cenas onde surgiam figuras humanas, desenhadas com toda a perfeição. Em telas medianas, geralmente rectângulos com pouco mais de meio metro no lado mais comprido, o engenhoso robot usava uma paleta rica, baseada em vermelhos, azuis-da-prússia e verdes de variadas matizes, magentas, ocres, enfim, cores alegres e vivas; tentava também fixar a textura cromática da pele e os seus reflexos elaborados; e, acima de tudo, era muito delicado na composição das cenas; por vezes pessoas sentadas em cafés, gente bonita a passear nos parques da cidade, ou ainda em poses banais do quotidiano, a comprarem flores ou sem nada de especial para fazer, numa conversa, numa tarefa doméstica, aparentemente tranquilas e pacíficas, sem pressa; iniciando o gesto de querer dizer alguma coisa, um pequeno segredo, a confidência, a banalidade; havia quadros onde surgiam humanos à janela, a observar quem passava, ou velhos trocando ideias, crianças a correr, pessoas a comer, com alegria, ou mimando animais de estimação.
Em certa ocasião, o robot começou a pintar o que pareciam ser outros robots, desengonçados e feios. Mas, em vez de os retratar em trabalhos cansativos que concluíam sem emoção, ou seja, a realidade, M36-42B colocava-os em poses de conversas aparentemente humanas ou no que pareciam ser cenas de pacata existência sem utilidade visível. Estas novas figuras não pareciam estar a fazer qualquer coisa, a trabalhar ou exercitar as funções próprias do género, o que era bem insólito.
Numa das telas, por exemplo, um pássaro poisara na cabeça de uma destas personagens e o que parecia ser o robot (tinha ar atarracado e feições monstruosas) sorria tão absolutamente que se poderia pensar no retrato de uma máquina que experimentava uma emoção de felicidade, ao ter o pássaro poisado na sua cabeça. Era quase inquietante.
Nesta altura, as telas começaram a ficar mais luminosas, com cores mais irreais, desenho mais impreciso, composições mais complexas. Algumas pessoas começaram a ficar interessadas no tema e a discussão espalhou-se. Era arte ou imitação?
Um dia, apareceram dois homens no pequeno estúdio que o robot usava para o seu trabalho de pintor. Era um conhecido crítico que acompanhava um importante negociante de arte. No caminho, os dois homens tinham discutido o assunto, mesmo antes de verem as telas:
“Os pintores sempre procuraram muita coisa”, dissera o crítico, “da impressão do momento ao ponto de vista de Deus que tornava a humanidade toda igual, como um disciplinado rebanho. Mas há um ponto em comum a todas as épocas: a busca essencial do ser humano, da nossa alma, quero dizer. Os robots são máquinas e, por definição, não possuem alma. Como podem eles procurar algo que não entendem à partida?”
“E nós entendemos?”, perguntara o negociante.
Os dois desconhecidos entraram no estúdio e começaram a observar o trabalho de M36-42B. O crítico apreciava o seu interesse formal, enquanto o negociante avaliava o potencial valor. Cada um via coisas diferentes e o crítico era ainda o mais céptico. Quase desdenhoso, gozando um pouco, fez algumas perguntas ao robot. Porque escolhera aquele tema; e a máquina respondia de forma evasiva:
“Posso chamar-te Vincent?”, perguntou a certa altura o crítico, embora estivesse com vontade de rir.
“Nós, os robots, não temos nomes”, respondeu M36-42B.
“Os vossos números de série são complicados e esqueci-me do teu. Chamo-te Vincent…”
“Se quiser…”
Dirigindo-se apenas ao negociante, o crítico ia comentando em voz alta e falava como se Vincent não estivesse ali:
“Veja esta pintura”. (Era uma tela que mostrava um ser aberrantemente feio a rir-se de nada). “É como eu lhe dizia há pouco, a imitação da busca do conteúdo puro, da essência do objecto, mas apenas como simulacro. Se todos os artistas devem tentar apanhar alguma coisa de universal e eterno, que pode haver de universal e eterno numa máquina que pensa estar feliz. Que pode um robot saber da verdadeira felicidade? Mas perguntemos ao artista: Vincent, que sabes tu da felicidade?”
O robot procurava as palavras:
“Vejo pessoas felizes na rua”, disse, hesitando.
“Mas já sentiste a felicidade ou outra emoção qualquer, por muito básica? Medo, inveja ou desprezo?”
Houve um silêncio penoso, que o próprio crítico quebrou:
“Vejo que não. A pintura humana é a busca de qualquer coisa, de uma ideia, por exemplo, mas sobretudo a procura da perfeição do humano”. No meio da prelecção, o homem segurava outra tela, esta mostrando dois robots sentados num jardim e que pareciam (loucura), pareciam apaixonados um pelo outro; e a cena estava desenhada com formas quase incorrectas:
“Se a máquina pode desenhar com perfeição geométrica, então porquê estas imperfeições evidentes? O que procuraste neste caso, Vincent? Que a emoção humana aqui transferida toscamente para duas imagens é absolutamente imperfeita? Ou que do ponto de vista do robot, aquilo que é humano equivale à imperfeição?”
“Queria contar a forma como os dois conversavam, a maneira simples…”
“Mas isto não é real, apenas errado. Será que procuras a imperfeição? Como se houvesse uma vida oculta e mais perfeita nos robots?”
“Sim”, respondeu Vincent, mas sem que se percebesse a qual das duas perguntas respondera.
Os dois humanos ficaram calados.
“É pena não poderes perceber o que é ser humano”, disse o crítico, “mas esta imitação de arte é sem dúvida interessante, como entertenimento”.
O negociante também se despedia. Decidira não avançar com uma exposição do trabalho, pois não queria polémicas.
Nas seis semanas seguintes, Vincent iniciou várias telas, mas não conseguiu terminar nenhuma delas. Tentava desenhar, mas não acabava os traços, pois deixara de saber por onde seguir. E as cores escolhidas pareciam-lhe desadequadas; depois, tentava desfazer tudo e recomeçar, mas era como se tivesse perdido o impulso que antes o fizera pintar robots vivos e surpreendidos, que tentavam descobrir no mundo um sentido para a sua existência interior.
Ao abrigo de um privilégio na altura ainda bastante utilizado, R36-42B pediu para ser desmantelado, o que se concretizou dois meses depois da entrevista.
Muitas das suas peças foram reutilizadas em modelos mais avançados.
Todas as noites, terminadas as aulas do liceu, o professor de física regressava a sua casa e cortava pelo atalho no parque para ganhar alguns minutos. Vivia sozinho, mas não gostava de perder tempo e o passeio ajudava-o a pensar em coisas estranhas, na consistência do cosmos ou em mundos paralelos. Dessa vez, tivera um pressentimento funesto, que se acentuou com as sombras densas do arvoredo, que o vento fazia esbracejar, tal qual uma multidão de alucinados discursos. Mas o ligeiro medo não foi suficiente para ele decidir fazer o caminho mais longo. Como sempre, tinha pressa. Prosseguiu com a rotina metódica, apesar da má sensação que se lhe colara ao corpo. Apenas protegeu mais o peito, fechando o casaco de Outono (demasiado leve) com as duas mãos, assim unidas numa espécie de reza, e lançou-se pela vereda escura, sem mais hesitações, passo acelerado, a cabeça inclinada para um chão que mal se via.
A travessia pareceu durar mais tempo do que era habitual. Tudo ondulava à sua frente, como um grande mar agitado, e a luz difusa que vinha dos candeeiros públicos da estrada, mais além do parque e cada vez mais longe, apenas sublinhava o clima confuso da floresta do parque público, a sua entranha em túnel e a cinzenta escuridão que o engolia num tumulto. Também devia ser assim o turbilhão do espaço primordial, pensou, com nitidez distraída.
De súbito, sentiu-se flutuar. Tropeçara e caiu, mas como que em câmara lenta, sentindo todo o percurso até ao chão. Os pensamentos estatelaram-se com ele e teve na boca a amargura do solo húmido. A nuca doeu-lhe de forma aguda e as mãos esfoladas pareciam ter mergulhado em ácido; durante algum tempo (a imprecisão do quanto) não viu mais nada, nem sentiu mais nada, nem cheirou ou tocou mais nada. Fora arrastado num abismo de nada e deixou-se arrastar.
O corpo dorido estendera-se na relva do caminho (seria relva esponjosa?) e percebeu que se suspendera a dança das ramagens; as folhas das árvores, subitamente amansadas, pairavam num contraste de escuro negro com fundo azulado escuro. A luminosidade do próprio tempo, meditou, a qual respirava do fundo dos tecidos fragmentados do mundo. Deixou-se levar nestas ideias, embalado na noite, encantado com a maneira como suavizara a ventania. Foi então que sentiu a música, que vinha de um recanto do parque. E viu os farrapos de luz eléctrica e as sombras. E ouviu os risos de gente. Iria lá pedir ajuda. Afastou o cobertor de folhas que tinha em cima.
Nem soubera que nessa noite havia festa no parque. Era um facto surpreendente. Sem o vento, a temperatura tornara-se amena. Abandonou a vereda e passou por entre as folhagens (o chão de folhas derretia-se sob o peso, numa carícia), abrindo caminho entre arbustos, e tornava-se mais intensa a música e mais brilhante a luz. E ali estava, perante a sua surpresa, a clareira cheia de gente feliz, de barracas de divertimentos e bebidas, carrosséis, famílias em passeio, a confusão habitual das festas da cidade. Que eram sempre no Verão.
E pensou, com clareza, como era estranho não ter sabido.
Avançou na direcção das pessoas.
Toda a gente vestia roupas leves e ouviam-se pedaços de conversas: vem cá anuska, não gosto dele, apetece beber; e a música tocava, bonito como o raio; quero ir ao carrossel, ficamos mais um pouco, a mãe disse…, quase no final…, um filme muito…, tens de ler…, demasiado caro…; o cheiro imenso do açúcar e da cerveja derramada; e a música prosseguia, lenta; anuska não te percas; e a banda soprava no estrado e viu os músicos que suavam como se saíssem da piscina; e nem uma folha do arvoredo bulia, (como compreender o frio?) e o céu estava limpo e estrelado por cima, abóbada perfeita e solene; e ao longe um sino; e flutuavam anjos; vem cá, minha estúpida, gritou alguém.
Ao entrar no meio da multidão que se acotovelava, viu que algumas pessoas olhavam para ele com reprovação; bêbado, neste estado, coitadinho; e que se afastavam.
E foi num incerto momento que ficou em frente a uma mulher que o olhava de forma insistente, como se fosse míope: era morena e bonita; cabelo à garçonne; em roda de trinta anos; blusa vermelha decotada; um corpo redondo e cheio, a saia comprida, calçava sandálias. Pareceu-lhe tudo isto, mas viu sobretudo a expressão de horror, ou melhor, de surpresa e espanto:
“Que estás aqui a fazer? Como é que mudaste de roupa?”, disse ela, voz muito aguda.
Ao lado da desconhecida, caminhava um homem alto:
“Cláudia, o teu marido é maluco. Como é que os alunos o aturam?”. O tipo apontara na direcção dele, professor de física, que saíra de uma vereda ventosa num parque vazio para deparar com aquela impossibilidade. E, por uma qualquer magia, os dois desconhecidos sabiam quem ele era, e a mulher que se chamava Cláudia (assim dissera a outra figura) seria a sua própria mulher (que não tinha).
“Isto é impossível”, disse o professor, sem nexo, cheio de frio, a segurar o casaco.
“Vinhas atrás de nós”, implorou Cláudia, à beira da histeria.
“Mundos paralelos”, gaguejou, “caminhava a pensar neles, outros universos, mas é precisa demasiada energia…”
Não podia explicar.
“Cláudia, o teu marido está bêbado”, disse o desconhecido, a rir-se. Pareceu-lhe que rira maldosamente. Com sarcasmo e ciúmes, talvez.
E, de súbito, numa angústia, a mulher apontou o dedo e gritou o nome dele. Como é que o conhecia, se nunca se tinham encontrado? E foi então que… sim, não havia dúvida, era ele mesmo, o professor de física, mas noutro tempo ou noutro universo, a caminhar de trás, no meio da multidão, ainda a dez metros de distância, a aproximar-se; vestia uma camisa suada, ainda não o vira a ele, o viajante surpreendido no presente, mas então os olhares cruzaram-se, ou melhor, a personagem que era o outro eu irreal viu-se a si mesmo, (eu consciente) embrulhado num casaco de Outono e cheio de frio e dores na cabeça…
O mundo explodia e o professor não conseguiu enfrentar aquela realidade impossível: virou-se, fugiu da luminosidade, em direcção da noite. E ainda ouviu, durante algum tempo, Cláudia que gritava mais vezes o seu nome, e vozes confusas e a música que se diluía.
Voltou o breu à volta e ergueu-se de novo o vento. Tropeçava e doía-lhe a cabeça, mas continuou a caminhar. Deixou de ver, mas as pernas moviam-se, mecanicamente; até que chegou ao fim do parque. Havia uma estrada, à esquerda, mal iluminada, excepto a luz de uma paragem de autocarro. O vulto de uma rapariga, numa gabardina creme. Ela sentara-se na paragem, sozinha. À espera do último autocarro, pensou o viajante. Caminhou para ela, cambaleou, e viu como a rapariga se assustava com aquela figura que emergia de súbito da noite, como fazem os assassinos.
Ela ainda tentou fugir, mas ele pediu-lhe ajuda, e a voz débil convenceu-a:
“Ajude-me, sou professor do liceu…”
“Que se passa?”
“Tive um acidente, talvez um ramo em queda…”
E o professor de física, muito racional, deitou-se no chão. Agora, tudo era evidente e voltava a fazer sentido: um ramo de árvore batera-lhe na nuca e tivera uma alucinação luminosa, onde apareciam pessoas fictícias. Apesar da escuridão, a mulher da gabardina creme viu o sangue que jorrava da cabeça dele e o homem balbuciava alguma coisa sobre a festa no parque, a luz e a banda, e que imaginara tudo, até se riu no delírio, mas ela não percebeu nada do que ele dissera, pois o parque estava vazio. A mulher julgou que o desgraçado enlouquecera.
“Foi tudo imaginação minha”, conseguiu ainda dizer o professor de física, mas numa voz tão fraca que ela se aproximou para ouvir.
E foi nesse instante, quando a rapariga se moveu e a pele dela ficou iluminada pelo candeeiro público, que o homem viu com nitidez a cara dela: era a mesma morena que encontrara na zona de luz, na festa improvável, a do cabelo à garçonne, que o outro desconhecido afirmara ser a sua própria mulher. Exactamente a mesma.
“Cláudia”, balbuciou, num arrepio…
Ela abafou um grito, depois chegavam outras pessoas, ouviu-se a sirene da ambulância e, antes de ser levado para o hospital, ainda ouviu a rapariga da gabardina creme a explicar a um polícia, com a sua voz inconfundível e, agora, demasiado familiar:
“Eu não o conheço, nunca o vi, mas ele sabia o meu nome. Disse que era professor do liceu. É muito estranho, chamou por mim várias vezes”.
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